" Ora, um livro só vive enquanto não é decifrado. Uma vez decifrado, morre imediatamente. É surpreendente constatar como um livro muda radicalmente quando o releio cinco anos depois. Alguns livros ganham muitíssimo, tornam-se novos. São tão diferentes que o leitor chega a questionar a própria identidade.Já outro perdem muitíssimo. Reli Guerra e Paz (Tostoi) e me surpreendi ao constatar que o livro me emocionava pouco ; quase me horrorizei ao pensar no entusiasmo que ele antes despertara em mim, e que agora eu não sentia mais.
Assim é. Uma vez decifrado, uma vez conhecido (grifos do A) , uma vez fixo e estabelecido seu significado, o livro morre. Ele só vive enquanto tem o poder de nos comover , e nos comover de modo diferente cada vez que lemos ; enquanto nos parece diferente cada vez que lemos. Dada a abundância de livros superficiais que de fato se desgastam com uma única leitura, a mentalidade moderna tende a achar que todo livro é sempre o mesmo, que termina após uma leitura. Mas isso não é verdade. O verdadeiro prazer da leitura é o que se tem ao reler o mesmo livro vez após vez, achando-o sempre diferente , descobrindo nele um novo significado, um novo nível de significação . É, como sempre, uma questão de valores: estamos tão soterrados por quantidades de livros que dificilmente nos damos conta de que um livro pode ser valioso, valioso como uma jóia, ou um belo quadro, algo que se pode mirar cada vez mais intensamente, cada vez tendo uma experiência mais profunda. É melhor ler um livro seis vezes , espaçadamente do que ler seis livros. Porque se um determinado livro é capaz de levar o leitor a lê-lo seis vezes, isso significa que cada leitura torna-se uma experiência mais profunda que a anterior , enriquecendo toda a alma, emocional e mental. Enquanto seis livros lidos uma vez só constituem apenas um acúmulo de interesses superficiais, o acúmulo oneroso dos dias modernos , quantidade sem valor real.
Veremos agora o público leitor se dividir mais uma vez em dois grupos: a grande massa que lê para se divertir e por interesses momentâneos , e a pequena minoria que só quer livros que sejam valiosos , que gerem experiência , uma experiência cada vez mais profunda. "
Evidente que algumas afirmações de Lawrence são suscetíveis de debate, porém ele suscita questões bem contemporâneas sobre a leitura "de qualidade" e "best-sellers", e a valorização da quantidade de livros, por exemplo e que teremos oportunidade de voltar a discutir. O escritor, falou duas coisas que me chamaram a atenção - uma que estamos afogados em uma quantidade imensa de livros e os recebemos numa atitude de consumo. Lemos (digerimos) e fechamos o livro (o livro "morre" após a leitura),foi consumido, acabou. Outra é da leitura de consumo em relação à leitura "de reflexão". Até onde podemos relativizar essa questão? Até onde é defensável dizer-se que uma obra aclamada pela crítica não foi ou será um dia de consumo, e vice-versa? Há casos e casos. Porém, nos devemos ater sobre se há como se criar parâmetros sobre a "boa" literatura (de reflexão) e a literatura de consumo, os best-sellers? Essa é uma reflexão que nos traz o artigo de Lawrence. Acredito que só se pode avaliar digamos, tecnicamente, se uma obra é "grande" pela temporalidade. Ou seja, dentro daquele raciocínio do autor de que a obra foi lida, relida e marcou cada período que atravessou em diferentes edições e em diferentes línguas. E o tempo. Acabam "clássicos". Há outros critérios como premiação, "nobéis" etc. mas vamos ficar só com a sua propagação através do tempo.
Aqueles que não atravessarem uma linha de tempo de certa dimensão, cem, duzentos anos não poderão ser ordenados entre os grandes. Para quem é profissional do livro, essa dificuldade é inquietante. Porque para o leitor comum não importa a "idade", nem a nacionalidade de uma obra. Importa que ela atenda à sua necessidade do momento.
A categoria "clássicos" se atribui a livros que evidentemente passaram nessa peneira do tempo, e só podem ser reconhecidos por nacionalidade (literatura francesa, inglesa, etc) pela qual serão procurados pelo especialista ou aquele leitor com certo grau de erudição, em geral , quando vencida esta linha do tempo de prestígio. Essa linha e esse prestígio são o que demarcam a sua origem.
Aqueles que ainda não têm esse status se classificam apenas como literatura contemporânea, independentemente da nacionalidade.
É claro que não precisamos concordar com Lawrence quanto à releitura de livros. Muita vezes acontece uma releitura na qual aquele livro que foi o máximo para você em certa época, até é capaz de decepcionar. Não por um problema de qualidade, mas de identificação, de sintonia com o seu momento, enfim... Daí pensarmos em parâmetros de qualidade, mas é se esperar muito de um leitor comum. Porém para o profissional do livro, e aí incluem-se críticos, editores, professores, livreiros e bibliotecários que necessitam de ferramentas de avaliação do livro por diferentes razões. Categorizar autores, um difícil caminho, mas por outro lado obriga o profissional a estar atento a vários aspectos que envolvem uma obra. Como já falei, a temporalidade, o selo pelo qual é editada, o currículo do autor. Muitas vezes há o autor "de Academia", (com exceção do Prêmio Nobel) que significa que ele tem prestígio,o que não significa necessariamente excelência. O critério acadêmico pode ser político, ou em razão só da repercussão de vendas. Como um bibliotecário, sem ser um crítico, pode dizer se este ou outro autor é notável ou não? Passado o teste da temporalidade, pode-se verificar a abrangência de sua obra a nível nacional e internacional, traduções em várias línguas, prêmios importantes, consultando-se boas obras especializadas ou mesmo fontes confiáveis da Internet. Enfim, o "currículo" da obra.Quase sempre, há exceções, mas a maior parte com esses destaques, vai frequentar a estante de "notáveis". Aí retomando Lawrence, por que optamos por não diferenciar uma literatura fácil daquela que nos deixa sequelas no pensamento por toda a vida, e colocá-las no mesmo balaio? É a pergunta que repasso principalmente aos colegas.
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