Diz um velho ditado francês "plus ça change, plus c´est la même chose" (quanto mais se muda, mais as coisas são as mesmas), e isso tem valido particularmente no Ensino. E vieram Piaget, o nosso excelente Paulo Freire , Emilia Ferrero, Edgar Morin, entre muitas outras cabeças brilhantes,e nada ,ou quase nada, aconteceu em matéria de grade curricular. Estamos no velho iluminismo - por aqui quem manda ainda é o "bom e velho" Auguste Comte - o ícone francês do Positivismo estendeu o ímpeto da racionalidade técnico-científica a todos os domínios da cultura e do espírito. A Educação no Brasil não pegou a carruagem do século 21. Daí os currículos carregados de programas disciplinares chatos e que não fazem sentido para o aluno, a não ser " tirar nota" ou "passar de ano". Ainda o velho ideal de que, a partir da matrícula, teremos um futuro cheio de einsteins, ou até mesmo os bill gates da vida, claro seria o ideal, mas o choque de realidade fala mais alto. Rendâmo-nos: o horizonte da maioria é ter uma boa carreira, uma profissão digna e, como sempre foi, - e nada há de reprovável nisso-, na verdade poucos serão intelectuais e cientistas, não por falta de mérito ou por fracasso da escola, mas porque esse é ainda um campo privilegiado, dos "gênios", como dizia Nietzsche, daqueles jovenzinhos "nerds" que têm uma curiosidade peculiar a respeito das questões e coisas do mundo, e essa se dá por estímulos e, sem dúvida, esses existem, não necessariamente na sala de aula, pena, porque não deveria fazer mais do que canalizar interesses e curiosidades. A curiosidade, a grande mestra que leva ao conhecimento e aprofundamento dos saberes. Como dizia Platão, "o conhecimento nasce do espanto". A velha grade já vem pronta do " forno", sem levar em conta porquê e para quê de suas propostas e aplicações. Frequentemente pergunto aos alunos que uso farão de determinada informação. A resposta é "sei lá, mandaram fazer". Ou procuram alguma coisa em "geografia" sobre industrialização ou capitalismo, sem se quer alguém lhes ter aventado que tal tema pertence a um ramo de conhecimento chamado Economia e esta por sua vez, ao campo geral das Ciências Humanas. Aí é que pode entrar a grande contribuição dos analistas, cientistas da Informação, ou os incansáveis bibliotecários.
Os profissionais da informação, ou os que militam nela, têm muito a colaborar para que sua biblioteca acompanhe a implementação dos avanços na Educação. Essa contribuição implica em revermos conceitos, um dos quais é o de que o conhecimento é constituído de disciplinas.Disciplinas, é sabido, são arranjos sistemáticos destinados a facilitar o aprendizado, mas têm a propriedade de isolar o conhecimento, o que é, aliás um "vício" científico sustentado por gerações . A ideia da interdisciplinaridade começa a ruir se não mudarmos essa estrutura de conhecimento.Os bibliotecários tradicionalmente também bebem da mesma fonte; do conhecimento submetido à noção científica. Enquanto pensarmos que a Cultura está atrelada à Ciência, e não o contrário, pouco se pode fazer em termos de mudança. E a mudança requer não só trabalharmos com grandes temas - e não disciplinas - e costurá-los a suas afinidades.
O próprio Melvin Dewey, tão familar aos bibliotecários, construiu sua famosa tabela, estabelecendo perguntas sobre a existência humana, uma bela ideia, mas que perdeu-se em privilegiar a noção geográfica e não temática em literatura e História por exemplo. Outra restrição é a CDD não permitir uma forma de estrutura pelo discurso do documento, tão bem proposto por Mortimer Adler,o qual estabelece uma tipologia de livros - livros de informação, livros de formação, de literatura e livros práticos. Essa idéia pode propiciar uma organizaçõe modular em vez de uma sequência linear de códigos de assunto. Nesse sentido, há a opção temática que é interdisciplinar - abriga várias classes.
Assim, livros informativos sobre a origem e desenvolvimento do homem abrigaria tanto cosmologia (100) , religião (200), psicologia (150) , antropologia (300) evolução (500), fisiologia (611) e reprodução (612)- um módulo. Um segundo módulo seria Meio-ambiente - físico e social - onde entram as chamadas "Geociências" e as Ciências Sociais. Outro, ítens da Cultura , inclusive a Ciência, e assim por diante. Assim, temas sob diferentes discursos, subordinam a Ciência ao contrário de lhe serem subordinados.
Uma experiência bastante singular é com relação aos escolares e suas buscas. Ao pesquisarem um assunto, por ex. Meio-ambiente, sentem-se perdidos entre "geografia" e "ciências" porque seu conhecimento está "disciplinarizado". Quando procuram culinária do Nordeste, procuram em "Geografia" e não em Cultura Brasileira, que deveria ser o ponto de acesso, não só no catálogo como na estante.
A literatura, cujo discurso é narrativo, é outro módulo independente e exclusivo.
Os livros práticos, cuja linguagem é dissertativa e também narrativa também merecem um lugar próprio compreendendo todos os ramos do conhecimento, logo todas as classes.
Sei que essa questão da interdisciplinaridade deve ser levada a muitos e muitos fóruns, principalmente na área da Informação. E que as mudanças não deverão acontecer sem traumas, aliás como foram todas as grandes mudanças que a humanidade conhece.
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