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quarta-feira, 11 de setembro de 2013

Viviane Mosé e a pesquisa


"Seis anos é a idade em que a criança deve começar a ser estimulada a pesquisar,pensar e formar capacidade crítica", Viviane Mosé, autora de “A escola e os desafios contemporâneos" (veja em http://www.eliomar.com.br/wp-content/uploads/2013/09/160698.pdf )
 ”

Esta parece uma constatação óbvia e até simples, mas o que Viviane defende é revolucionário: substituir a aula pachorrenta pelo exercício da curiosidade envolvida na pesquisa, coisa que lá, pelos idos do início do século 20, Bertrand Russell defendia. E por isso quero falar nela. Voltando à contemporaneidade, o que a Internet tem feito é aguçar a curiosidade. A pesquisa, uma palavra que assusta os menos avisados, é possível desde as fases iniciais do ensino. Quando estimulamos  uma criança a selecionar uma cor ou um objeto dentre outras, já é uma pesquisa em gestação. Pesquisa é um ato de recorte, de seleção e pode ser feita do modo mais simples ao mais complexo. Lembro-me de um livro-jogo que, até bem pouco tempo, fazia sucesso entre a garotada: Onde está Wally?(1) ali estava um exercício primário de seleção. Achar Wally e os objetos de Wally exigia uma acuidade e uma concentração,  tal como a leitura gráfica exige, sendo o próprio jogo uma leitura por imagens. Na pesquisa, como processo de desenvolvimento cognitivo, procuramos aqueles objetos que estão relacionados entre si e os evidenciamos, da forma como Wally estava relacionado com sua touca, seu sapato, sua bengala etc., com a diferença que a representação na pesquisa formal é verbal, são as palavras, e não as figuras, que necessariamente guardam relação entre si, como árvore e plantas; mar e peixes. Nas fases iniciais, as relações são bastante simples: a árvore pertence ao mundo das plantas; os peixes ao mundo aquático, as pedras à terra etc. e se dá por associação. À medida que a escolaridade aumenta, a pesquisa já vai tomando a forma estruturada, com os assuntos e suas relações necessariamente interligadas e mais complexas. Se eu estou tratando do clima de um país, os elementos aos quais o estudante deve se ater em um verbete  é a posição desse país na superfície terrestre, a sua latitude, seu relevo e hidrografia enfim, tudo que interfere com clima, o que deve ser orientado pelo professor, previamente ao trabalho. Esses elementos recortam o tema. Evidentemente que o professor não abrirá mão do recorte preciso em cima de qualquer tema, do contrário a pesquisa estará invalidada pelo falta de foco, será perdida. Se a pesquisa é sobre clima, não tenho que falar de culinária. Veja a pesquisa como um foco de uma lanterna, que não é difuso. Outra coisa importante é o enunciado. Se eu desejo saber sobre os meios de transporte no século XIX, eu estou querendo tudo sobre esses meios naquele século, portanto uma alentada dissertação. Se eu desejo saber quais eram os meios de transporte do século XIX , eu estou pedindo apenas para enumerar. Se eu estou pedindo para dizer como eram, eu estou pedindo para descrever. Se eu pergunto  por que assim eram, estou  exigindo uma argumentação. Cada enunciado demandará por parte do estudante um discurso diferente, o que é um dos aspectos mais importantes da pesquisa na construção textual. Então, quanto mais genérica a pesquisa, menor a seleção; quanto menos genérica, maior a seleção. Uns equívocos muito frequentes são aqueles em que a amplitude da pesquisa é imensa: o professor pediu "Europa", mas como Europa? Se o estudante consultar o verbete de enciclopédia ele vai encarar, coitado, umas dez páginas; na Internet uma profusão de sites, embora a Wikipedia forneça dados relativamente resumidos, ele é um site colaborativo e passível de erros. O importante é que se diga o que se deseja saber sobre a Europa, ex.  se se distribuir a pesquisa entre os alunos pode se pedir a um grupo que  fale do grupo de línguas de um modo geral; a outro das moedas, outros mais do IDH e das etnias, assim por diante, sempre explicando o que cada item representa. Muito se pode falar ainda de pesquisa, mas, sobretudo, quero dizer que a entrevista de Viviane Mosé me motivou a tratar do tema, uma luzinha no fim do túnel. Confiram.

(1) Onde está Wally? de Martin Handford. Publicado no Brasil pela Martins Editora.

sábado, 10 de agosto de 2013

Ainda Beatriz Sarlo: bibliotecas, centros tradicionais de interação?

Retomo aqui algumas questões sobre as quais dialoguei com o texto de Beatriz Sarlo(1) para refleti-las, particularmente com respeito às bibliotecas:
    As bibliotecas são, de fato e direito, centros tradicionais (que segundo a autora, “deixaram de ser centros de interação”)?

1. Sim. Por sua função patrimonialista (“preservar”) e cumulativa, porém num ordenamento sistemático do conhecimento e sob paradigmas de qualidade (canônica), que norteiam o processo de formação do acervo;

1.1 – Este processo de desenvolvimento do acervo se dá segundo um critério de autoridade, estabelecida por relações de prestígio “ entre as elites letradas”, especializadas ou não, formalmente organizadas,tais como as associações de autores, universidade, editores, bibliófilos, academias e críticos,em todos os seus níveis, desde municipais, federais e internacionais; e será essa autoridade mesma que responde a um projeto de qualidade, no campo da seleção biblioteconômica;

2. A configuração tradicionalista também se reflete nos aspectos da organização, cujos meios ainda se conservam quanto à classificação (universal) e topográfica(decimal) dos livros para o público – esta é ainda uma parte devedora das bibliotecas em inovação e acessibilidade; 

 3. É, sim, tradicionalista quanto à circulação, marcada pela obsessão das “perdas e danos” (“tombar” livros ainda é uma prática comum) e certa sacralização, o que é menos observado em outros bens culturais. É lógico que, sem livros, nenhuma biblioteca existe, porém, que se oxigene essa circulação quanto a eventuais (e mais comuns do que se revela) perdas. Hoje podemos ficar muito mais seguros quanto a isso, porque a tecnologia permite preservar originais  em matrizes não impressas em papel. Não menos comum é a prática de manterem livros em desuso (não os raros) em depósitos de bibliotecas, por anos ou décadas, porque há “medo” do descarte. Tal coisa ocorre por falta de políticas públicas claras. É necessária forte profissionalização nessa área. Ao contrário do médico, o bibliotecário tem de escolher, sem fazer dessa escolha uma “escolha de Sofia”*, sábia e seguramente, qual(is)livros  e em que condições, devem(m) alimentar a cadeia de "mortais". Esse é um elemento fortemente tradicional, pois para livros também se aplicaria  uma lei de Lavoisier própria: a de que nada se perde e tudo se transforma. 

Uma frase que me deixou a meditar foi quando Sarlo diz:os desejos tendem assemelhar-se, mas sua realização não” (107) É bem verdade que o público de biblioteca a freqüenta: 1º por seu (dela) papel social – ele não pode comprar um livro;2º, ele não tem onde armazenar livros, 3º, ele só necessita de livros temporariamente; 4º, ele vê a biblioteca como mais uma possibilidade de lazer. A autora está se referindo ao acesso de um bem, no nosso caso livros, evidentemente, entre os usuários que não podem adquiri-los.Via de regra, quem os deseja e pode comprar, não irá a bibliotecas, mas às livrarias. E num segundo momento, esgotado o interesse, poderá se desfazer deles, doando às bibliotecas e quanto a isso, não foram poucos acervos primorosos a se  formarem por esse meio desse tipo de circulação. E muitos desses acervos cumprem perfeitamente a tarefa de prover os que desejaram este ou aquele título, mas que não têm a posse dele, mas somente a fruição. O que ameniza,  como ele diz, a desigualdade, mas não a supera! 

Pergunta-se: quando as desigualdades acabarem, apenas restarão as bibliotecas especializadas? Nessa hipótese de todos terem poder aquisitivo, as bibliotecas gerais  perecerão? Não, primeiro porque a capacidade das bibliotecas armazenarem obras supera  a da maioria dos colecionadores particulares. Segundo, porque seus sistemas de informação superam a capacidade dos motores de busca recuperarem seus conteúdos de modo estruturado, por mais que  os bilhões de kbytes dos sites oferecidos na Internet sejam superiores em volume aos dos bancos de dados das bibliotecas.   Ao contrário dos sistemas de bibliotecas, os recursos informacionais eletrônicos, (os chamados portais abertossão pulverizados, quânticos; nos sistemas de biblioteca esses recursos não se organizam por hipertexto e, sim, por técnicas biblioteconômicas - indexação, tesauro, catálogo etc. O usuário da informação, que não seja treinado não conta com os meios seletivos para satisfazer sua indagação  na medida de sua necessidade e perfil, e no que se refere a fontes confiáveis,  à profundidade e à adequação ao seu nível cultural. Por isso os sistemas de bibliotecas são vantajosos em relação aos portais, e o bibliotecário passa a ser fundamental em sua tarefa de educador da informação. 
Mais dramática ainda é a situação para aqueles que carecem de “ferramentas cognitivas para saberes ligados à palavra, ao raciocínio lógico e matemático, à expressão lingüística e a argumentação [retórica], indispensáveis ao [exercício] no mundo do trabalho, tecnologia e política” ( 114 ) Não são, porém, só os meios eletrônicos que ameaçam a leitura. Toda e qualquer leitura requer essas ferramentas. Concordo, no entanto, com Sarlo sobre o fato de que a rapidez da leitura [nos meios audiovisuais] não habilita o leitor para “a capacidade intelectual de longa concentração”, em tese característica do texto, para o qual é crucial não se ter pressa. Diz ela: “Aprendizado implica em dificuldade e distanciamento. Aí permanece uma necessidade de intervenção [escolar] forte e  não baseada no espontaneismo dos sujeiros (115). Esse espontaneísmo ou um "novo" autodidatismo eu venho acusando, e com preocupação, em muitos artigos nesse blog, quando as políticas de leitura vêm a reduzir a importância do aprendizado na leitura.
As bibliotecas continuarão tradicionais sim, ainda bem, no que elas tem de mais essencial: o requisito dos saberes mencionados, a universalidade, a circularidade e não pulverização do conhecimento.

* Sophie's Choice (br / pt: A Escolha de Sofia) é filme estadunidense de 1982, do gênero drama, dirigido e roteirizado por Alan J. Pakula e baseado no romance de 1979 de William Styron.(Wikipedia)
SARLO, Beatriz. Culturas Populares, Velhas e Novas. IN: Cenas da via pós-moderna/ intelectuais, arte e videocultura na Argentina. Rio e janeiro: Editora da UFRJ,P 100-22



segunda-feira, 22 de julho de 2013

Recortes de Beatriz Sarlo


 Beatriz Sarlo, renomada intelectual argentina, com quem só tive contato por fontes e indicações diversas, me surpreende, por um lado pela sincronicidade de alguns aspectos de seu pensamento com ideias que tenho defendido; por outro, pela provocação que coloca em ebulição, não intencional, mas implicitamente o papel do bibliotecário e, intencional e explicitamente, o do professor no mundo de hoje. Minhas intervenções estão entre chaves e negrito. Alguns trechos abaixo:
  
“Velhos  centros tradicionais de interação – bibliotecas populares, comitês , clubes de bairro – deixaram de ser os lugares  onde, no passado, definiam-se perfis de identidade  e sentido comunitário”(87) [Em muitos casos, interesses políticos se apropriaram deles, ou via institucional, ou por influência de grupos privados. Nós, bibliotecários e professores, como parte desses centros tradicionais, talvez devêssemos refletir sobre o nosso papel nesse contexto] ]

“Os mais jovens não encontram [ mais] nesses espaços [“Lugares ainda dominados pela Cultura da Letra [grifo 1] e pela relação individual"] nenhuma das marcas culturais que interessaram a outros jovens, trinta ou quarenta anos atrás. [... tal afirmação é verdadeira. O que se tenta hoje é reduzir-se o discurso, ou sumariamente, como na obra infantil de Monteiro Lobato e outros "clássicos" ou com adaptações, muitas de qualidade duvidosa]  Hoje a cultura juvenil é (...) a mais dinâmica das culturas populares e não populares e (...) mais do que pelo pertencimento social [desterritorialização], as experiências culturais se recortam pelas pirâmides das idades”, [no entanto] o único obstáculo eficaz contra a homogeneização cultural são as desigualdades econômicas – os desejos tendem assemelhar-se, mas sua realização não” (107) [embora a homogeneição cultural possa se dar, parcialmente, via equipamentos públicos, não há apropriação privada por esses jovens (não têm computador em casa), são "clientela" da inclusão digital, que como toda política pública tem sido entendida como acesso, enquanto acesso é só parte da inclusão; como no ensino, é necessário qualidade de acesso, com a ressalva de que a satisfação por ter acesso não é a mesma que a de ter posse] 
“Por um lado, os letrados que detinham o monopólio da legitimidade cultural, hoje se vêem desafiados por novos mecanismos de legitimidade. Não podem os letrados mais legislar sobre o gosto, [grifo 2] [Verdade. isso tem a ver com, por exemplo, uma política de leitura voltada para a Literatura e minimizando o impacto das tecnologias de informação no cotidiano dos jovens e apontando o livro na sua expressão tradicional como a "salvação"contra a homogeneização midiática] porque outros centros legitimadores ["menos nobres"] ditam a moda: a cultura audiovisual escolhe seus próprios juízes e reconhece a força do número, uma vez que seu negócio está na ampliação incessante de público, mais do que na distinção elitista de grupos”. (108)     [ também em nome de uma excelência formadora da literatura está havendo, já há algum tempo, uma aproximação do livro com formas midiáticas de promoção, via produção cultural, ludicismo e espetacularização]" Seja como for, as culturas populares desvaneceram-se; [Creio que Sarlo se refere ao amálgama de influências; isso se torna claro na expressão musical. Por outro lado, por um processo que as literaturas ditas étnicas tentam resgatar, as manifestações tradicionais acabam se folclorizando, fixando-se em calendários culturais e regionais  como as culturas de origem negra e indígena, e nesse aspecto, bibliotecas,museus instituições de ensino e setores de produção editorial se consolidam também como centros tradicionais]; também esfumaçaram os perfis estáveis que distinguiam as elites do poder.[Nossos ídolos seculares não são mais os mesmos, tendem a ser artistas "celebridades"vulgares e esportistas, enquanto os intelectuais, políticos e cientistas brilham para e entre seus pares] (...) A universalização do consumo material e a cobertura total do território pela rede audiovisual  não acabam com as diferenças sociais, mas diluem algumas manifestações subordinadas a essas diferenças (109)” [cultura e indústria fake, irradiação da moda e linguagem televisiva etc.]
“O caso das línguas é particularmente significativa. Durante décadas [talvez séculos] a língua correta era o ideal [grifo 3] da escola – hoje desaparecido(...). [Esse é o ideal da cultura letrada, legitimado pela escola, porém sem sucesso, porque em vez de empoderar o discurso do estudante, coloca-o numa postura de contemplação e admiração - oh como é bela a arte, oh que belas letras! -, e não o engaja na produção, mas na reprodução do discurso letrado, sem sentido e defasado para ele.Outra ressalva a fazer é a de que, para o sucesso ou para o insucesso, a reprodução da cultura letrada permanece como uma  ferramenta de inclusão no mercado] A vitalidade e a criação lingüística passam por caminhos completamente estranhos à cultura letrada; a homogeneização lingüística desbasta  as diferenças de região , classe ou profissão.(...)" [Objeção minha: não diria "estranheza", mas de rejeição, uma vez que a cultura letrada é encasulada dentro de cânones para resistir, não se deixar penetrar, ou garantir sua sobrevivência]
“Os símbolos de mercado, igualmente acessíveis a todos, tendem a desvanecer os símbolos da velha dominação. (...) Não geram o mesmo tipo de diferenciação  incontornável [tanto faz ] o usufruto de uma biblioteca familiar ou a posse de uma motocicleta japonesa. (...) Aquilo que era cultura letrada – então a única cultura legítima – já não organiza a hierarquia das culturas e subculturas. [Confinam-se nos centros tradicionais de irradiação de cultura, porém ainda dão as cartas quanto à inclusão social] Os letrados diante disso lamentam o naufrágio de valores  sobre os quais estava baseada sua hegemonia ; (...) desconfiam  das [e temem]as promessas do presente; os segundos, neopopulistas, (...) acreditam fervorosamente nelas. [Tanto os tradicionais quanto os pós-modernos pecam por acreditar no espontaneísmo, os primeiros via leitura e os segundos via tecnologias] (...) " Primeiro, os apocalípticos, velhos legitimistas, defensores irredutíveis das modalidades culturais prévias à organização audiovisual; segundo os integrados (2), defensores assalariados vocacionais das indústrias audiovisuais e sua nova legitimidade cultural. Na maioria dos países da América Latina, a escola pública é hoje o lugar da pobreza simbólica, onde professores, currículos e meios materiais concorrem com [eu diria perdem para]os meios de comunicação, q são [também]de acesso gratuito e abarcam os territórios nacionais [e internacionais] (...) A cultura letrada está em  falência no mundo – os norte-americanos vêem com inveja os resultados de exames de crianças japonesas submetidas a regime de samurai para evitar o declínio do desempenho; a escola francesa lamenta a queda dos padrões (...); multiplicam-se os exemplos mais tardios das capacidades elementares [vejam os estudos de defasagem em todos os níveis no Brasil, que repetidas vezes apontei como obstáculo À leitura(112); vivemos uma crise de alfabetização e, com ela, da cultura da letra, embora os otimistas [integrados] celebrem as habilidades adquiridas com o zapping e os videogames(...) Afirma-se que a escola não estava estruturada para advento da cultura audiovisual, nem as estruturas educacionais foram modificadas, com velocidade, às transformações dos últimos anos. (...) Não se trata apenas da questão de instrumento técnico e sim de mutação cultural (113): a escola poderia beneficiar-se das habilidades adquiridas no videogame, dos conteúdos da mídia, da velocidade das respostas à superposições de imagens; (...) [E importante]pode-se questionar se tais habilidades são suficientes  como ferramentas para saberes ligados à palavra, ao raciocínio lógico e matemático, à expressão lingüística e a argumentação [retórica], indispensáveis ao [exercício] no mundo do trabalho, tecnologia e política.[grifo 6] [Essa capacitação não se dá nem na cultura dita letrada hoje. Essa é a essência de toda dificuldade em relação ao produto ou bem cultural livro de que tenho falado] A rapidez da leitura [nos meios audiovisuais] não habilita para a capacidade intelectual de longa concentração [grifo 7] (...), nem preparam para o manejo de sofisticadíssimos programas como hipertexto [ A maioria dos usuários fazem uso da Internet como consumidores, sem atentar para os processos].(...) A aquisição de uma cultura comum  - ideal democrático – pode ser reinventado com um sentido de maior pluralismo  e respeito às diferenças, ao estranho e supõe uma série de recortes, e não, de continuidade frente ao cotidiano (...) Aprendizado implica em dificuldade e distanciamento [frente ao desconhecido]; permanece aí uma necessidade de intervenção forte e  não baseada no espontaneismo dos sujeiros (115) 
O adestramento dos espectadores de Xuxa ou dos pensadores de videogames pode ser utilizado até certo ponto: logo, logo, esses espectadores e  jogadores deverão tornar-se leitores de uma página que requer habilidades ausentes nesse mundo [midiático]. Numa escola forte e intervencionista, os letrados impuseram aos setores populares muitos valores, histórias e tradições. Aquele também foi um espaço laico, gratuito e igualitário, onde os setores populares puderam apropriar-se de instrumentos culturais para empregar em seus próprios interesses (118)”
Assim como as culturas letradas não tornam a seus clássicos, senão por meio de transformação,deformação e ironia [grifo 9: adaptações, provavelmente na expressão argentina], as culturas populares não podem pensar mais nas suas origens, a não ser a partir do presente e, de todo modo, pressupor suas origens já é algo problemático.(119)“Se se quer criar condições para a livre manifestação dos diferentes níveis culturais de uma sociedade, a primeira dessas condições deve ser a garantia de acesso democrático aos armazéns [grifo 11] onde estão guardadas as ferramentas : forte escolaridade e amplas oportunidades de opção entre diferentes ofertas audiovisuais [públicas?]que concorram com as repetidas ofertas dos meios capitalistas (121)”[Ou seja: parafraseando Maquiavel, "se não puderes derrotar teus inimigos, junta-te a eles].

 SARLO, Beatriz. Culturas Populares, Velhas e Novas. IN: Cenas da via pós-moderna/ intelectuais, arte e videocultura na Argentina. Rio e janeiro: Editora da UFRJ,P 100-22

                                                                                     


sexta-feira, 12 de julho de 2013

As faces do Face


O Facebook é algo que é "para o bem e para o mal", diz o senso comum. Reiterando esse quase adágio e abusando da constatação de Berthold Brecht - "que tempos são esses em que vivemos afirmando o óbvio?", é isso mesmo. Duvido que Zuckerberg tenha premeditado o que seria essa Hidra de Lerna, um monstro mitológico que, cada vez que tinha a cabeça cortada, nasciam duas, no caso do Face não são duas, mas milhões de cabeças em conflito ou em harmonia e, cada vez mais, uma pirâmide gigantesca, em movimento e devorando, amoral, os desejos, o Bem e o Mal, as virtudes e as contradições humanas, ora ao atirá-las à ação, botando vidas em circulação como nas passeatas, ora tirando-lhes o sangue e a alma, como nas minorias fundamentalistas e violentas - sim, porque assim como cidadãos se aglutinam, entre eles há gente raivosa e gente "do mal" também. Se é para construir, também é para destruir, porque diante deste monstro cibernético, por mais que as pessoas se disfarcem em risonhas máscaras - à semelhança de Guy Fawkes (foto) -  de felicidade e alegres mensagens de "elevação espiritual" e alta estima, a vida é dura para a maioria e existe, entre outras possibilidades de escapismo, o Face, cujo nome melhor talvez fosse Espelho ou Mirror, especialmente dos desejos de ser o que não se é, de ser visto, de ser amado, até de ser odiado mesmo que por vaidade, como uma autoestima às avessas, enfim, a despeito de qualquer mérito moral, Zuckerberg formatou uma rede de relacionamento que, segundo se diz, hoje é uma "nação"- multicultural - entre as maiores do mundo, só inferior em população à China e à India, multi (meta)linguística, porque afinal fala-se da vida, e consequentemente, de nós mesmos. É o quinto poder, com chance de alçar a primeiro, quem duvida? Mas o que me chama atenção é que ele é também uma espécie de uma giga-cultura sob a lâmina de um giga-microscópio. Pense quem afinal  você é no meio dessa multidão, senão  um privilegiado micróbio pensante! Isso é tão grande, tão grande que, ao contrário do que parece exposição, é anonimato puro, você é sim, o tão mal-falado  anonymous, o anônimo, contra o vento e contra a (sua) vontade. E que para ser notado, muitas vezes, precisa chegar ao ridículo ou patético. Ou mesmo ao bizarro, na acepção mais extrema. Sinto decepcioná-los.Quanto maior é o Universo, menores somos, à exceção de quando juntamos nossas forças. Êta senso-comum!

domingo, 5 de maio de 2013

O barão e o leitor





Tive a oportunidade de ler o livro O Barão Nas Árvores, do prestigiado escritor italiano Ítalo Calvino (1923-85). Nele, o autor aplica  grande parte - pelo menos as quatro primeiras -  das seis qualidades que, para ele,  apenas a literatura pode salvar - leveza, rapidez, visibilidade, multiplicidade, exatidão e consistência (1). É uma narrativa fluente, viva, e ainda nos oferece uma ambientação e um panorama dos costumes do século XVIII europeu - a Penúmbria era essa Europa -  com lances de romance de cavalaria - romantismo "capa-e-espada"- e um humor à la Cervantes, no que se refere às marchas e contramarchas, principalmente amorosas, na vida de Cosme, o Barão de Rondó. Mas o que é a marca do romance é o fato do herói (às vezes anti-herói) sobreviver em árvores, sem "jamais descer", em razão de sua resistência aos costumes e tradições autoritárias de sua família de origem fidalga. Sua experiência nessa condição, ora flertando com o Bem, ora com o Mal, mas sempre perseguindo o que considera justo, é múltipla, em razão de grande diversidade de personagens e situações. O que chama a atenção é que, à medida que se desenrola a ação,  mais Calvino exige do leitor a "suspensão da descrença", embora pareça o tempo todo tentar nos fazer crer  que é possível  sobreviver sobre árvores. Evidente que essa capacidade (de suspensão de descrenças, não de viver em árvores) é muito mais acentuada entre crianças e adolescentes, estão aí as séries, por exemplo, Senhor dos Anéis e Harry Potter, sucesso entre esses leitores jovens. Talvez Calvino tentasse uma incursão - frustrada - por aí. No entanto, mal comparando, a diferença  a destacar sobre o italiano em relação aos ficcionistas "para jovens" é o incomum refinamento descritivo que arrisca tornar o romance híbrido, ou seja, uma exuberante fantasia que o torna, por outro lado,mais apreensível pelos adultos, e adultos cultos,com certo, digamos, "verniz" para absorver uma narrativa com a mesma agilidade com que se trocam fatos e personagens históricos  ( entre eles Napoleão), idiomas diversos  e misturados às falas, e  livros, pois o protagonista os consegue de um livreiro judeu - sem jamais sair de suas árvores!  Não recomendaria, por isso, o Barão das Árvores aos jovens? Para mim, que não sou versada nem em século XVIII nem em idiomas, sim, você nem precisa ser um conhecedor dos episódios ali narrados, curtos, mas nunca  superficiais. Você  pode encarar o livro como uma alegoria na qual esses fatos estariam como que embalados pela natureza propriamente dita - as árvores como palco da ação - e pela natureza  humana, essa sim diante da qual nada é absurdo.




(1) Ítalo Calvino as descreve magistralmente essas qualidades em Seis Propostas para o Terceiro Milênio (Companhia das Letras)

quarta-feira, 3 de abril de 2013

A biblioteca e o gargalo


Insisto, há pelo menos dez anos,- e tenho apresentado inclusive em congressos -, no fato de que a "falta de hábito de ler" e logo, de frequentar bibliotecas, não está nos déficits nem de livros nem de bibliotecas (mesmo que eles existam), ou seja, no acesso: defendo a biblioteca na sua concepção tradicional: é um espaço de leitura e cultura, mesmo que essa leitura/ cultura se desenrole em diferentes suportes: mídias impressas ou multimeios, e suas linguagens próprias. Defendê-la como   espaço de lazer é propor uma competição com outros bens culturais e colocá-la de saída em séria desvantagem. Biblioteca  é onde podemos relaxar, compartilharmos de um silêncio nas salas coletivas, da concentração necessária para nosso crescimento e de uma troca entre autor e leitor de uma forma produtiva. Portanto um espaço que precisa ser marcado por sua característica própria, que há algum tempo as bibliotecas vêm perdendo. O espaço social (de eventos e atividades) deve estar circunscrito e  corresponder ao que o acervo oferece.  Porém, como tenho repetidamente colocado (e pouco tenho sido ouvida) é que temos um sério gargalo e que se refere a um requisito que os responsáveis pelas políticas têm esquecido - intencionalmente ou não - a de que para se ter leitores é necessário letramento adequado e que por mais se invista em incentivos à leitura, mantido esse quadro,os resultados serão pífios na formação do leitor usuário dos livros. Observem o trecho em destaque, principalmente, sobre o potencial leitor que "não se tornou usuário da língua escrita" e  portanto não é frequentador de bibliotecas. Vejo nesse gargalo uma das razões pelas quais as bibliotecas em geral padecem de alcance. O artigo abaixo ilustra nessa matéria publicada em 27 de março de 2013 pelo Jornal da Cultura (site abaixo): 
Vejam a matéria:
Todos os anos, o governo aplica provas desenvolvidas exclusivamente para avaliar a educação brasileira. Essa iniciativa ainda não é parâmetro de qualidade no ensino, se levado em consideração que o Brasil ocupa o 88º lugar no ranking de educação da UNESCO.
Os índices são preocupantes — de acordo com Instituto Paulo Montenegro, aproximadamente 75% das pessoas entre 15 e 64 anos não conseguem ler, escrever e calcular plenamente. Dessa porcentagem, mais de 60% são analfabetos funcionais e 7% considerados analfabetos absolutos.
Segundo um levantamento feito em 2010 pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), o Brasil possui 30.558 milhões de analfabetos funcionais.
“Os números ainda são alarmantes numa sociedade supostamente democrática. E quando a gente vai entender melhor esse quadro do analfabetismo, a gente percebe outros problemas, que não é apenas o sujeito que não sabe ler e escrever, mas aquele que passou pela escola, que supostamente deveria saber ler e escrever e não se tornou um usuário da língua escrita. A gente sabe que muitos alunos chegam no 7º anos da escola sem saber ler e escrever. Isso mostra que a escola também não está cumprindo o seu papel”, explica a Silvia Gasparian Colello, professora e pesquisadora da Universidade de São Paulo (USP).

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Um mundo sem estantes (por Arnaldo Pereira Júnior)


Nesse artigo, Arnaldo Pereira Júnior faz uma boa reflexão para colocar na mesa de profissionais do livro e informação 

Um amigo entra na minha casa nova, vê as estantes ainda vazias e começa o bombardeio: "Para que espaço para tanto livro? Livro está acabando".
Ele não quer saber da vista, de nenhum detalhe da obra, da arquitetura ou da decoração (não que eu tivesse algo a dizer sobre essas coisas, mas, enfim, era uma casa nova). O incômodo com as estantes é maior que tudo isso.
Para me safar do cerco, banco o moderno. "Claro que eu sei, os livros eletrônicos são o futuro. Mas isso aqui é para armazenar o que eu já tenho, entende? Até hoje guardo livros na casa dos meus pais, para você ter uma ideia."
Cascata, tática diversionista. Eu sabia que, se já estava sob tiroteio pesado, tudo iria piorar quando meu amigo visse a outra face do móvel. Ali, eu dava os primeiros passos para eliminar a bagunça dos meus CDs. E "in style", à moda gringa, ordenando por sobrenome.
Um serviço que, digamos, me dava certo orgulho. Mas o sentimento só dura até o próximo balaço: "E esse monte de lugar para CDs? CD não vai existir mais".
Em busca de trégua, sugiro sairmos para jantar. Encontramos a mulher dele. Como na faixa de Gaza, o cessar-fogo tem curta duração. "O Álvaro está maluco, botou um monte de estantes na casa nova, parece que não sabe que livros e CDs estão condenados."
Isso faz alguns anos. Nem preciso dizer que, tanto para livros quanto CDs, o espaço naquelas estantes, que pareciam obsoletas, está no fim. E o mais irônico: meu amigo, profeta do apocalipse do plástico e do papel, nunca chegou a comprar um leitor eletrônico de livros. Não tem Kindle nem iPad. Continua encomendando seus volumes de papel.
Já eu, dono do móvel ultrapassado, adotei o livro digital. O encanto inicial foi grande, até escrevi sobre isso. Caminho sem volta para um mundo sem estantes? Talvez não.
Há poucos meses, o ator Bruce Willis revelou que planeja algum tipo de ação legal contra a Apple. O objetivo é garantir que sua vasta coleção de música, em grande parte baixada na loja virtual de Steve Jobs, faça parte da herança que ele deixará às filhas.
Nas entrelinhas da burocracia, Willis descobriu que as músicas não são exatamente dele, nem de ninguém que as compra. São, de certo modo, alugadas. Se ele morrer, voltam para a Apple. Não quer deixar, para as três jovens, um legado de silêncio.
O pesadelo que Willis tenta evitar, uma mulher norueguesa já enfrentou. Identificada apenas como Linn, um dia ligou seu Kindle, o leitor eletrônico da Amazon. Ao conectar o aparelho à web, o golpe: todos os livros que já tinha comprado foram apagados em um segundo.
Seguiu-se um pesadelo kafkiano. Ao contatar a Amazon, foi informada de que havia problemas de fraude em uma outra conta, também associada a ela. Como punição, todas as contas estavam sendo canceladas. Adeus, livros digitais.
Só um problema: ela não tinha nenhuma outra conta. Era claramente um engano. Mas a Amazon se recusava a dar detalhes. Linn não tinha como se defender.
Alguns escritores souberam do caso, e passaram a divulgá-lo. Só a partir daí a situação foi aparentemente resolvida. Os livros eletrônicos foram restituídos a Linn, independente do status da conta.
O futuro desse universo cada vez mais digital é cheio de riscos. Imagine: colapso na nuvem. "Crashes" de servidores, fibras ópticas rompidas, blecautes em série nos principais polos hi-tech da Terra.
Nos primórdios da web, uma situação assim teria uma consequência grave: internet fora do ar. Grave, porém única. Músicas, filmes e demais arquivos baixados pela rede estariam a salvo, guardados nos computadores das casas das pessoas.
Mas, hoje, tudo mudou. Um crash gigantesco seria muito mais devastador. Porque cada vez menos gente armazena em casa seus arquivos digitais. Está tudo em servidores poderosos, espalhados pelo mundo. Nessa nuvem, digital e amorfa.
Não é fora de propósito imaginar um cenário de perda de contato com ela. Sem livros físicos, sem CDs, os arquivos digitais perdidos na nuvem isolada. A distopia digital extrema. O mundo das ideias salvo pelas
estantes.
Fonte: Folha de São Paulo / Ilustríssima. Sábado, 08 de dezembro de 2012 p.E14