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quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

Meu amigo íntimo


Já de algum tempo ao som de repiques, trombetas, retretas e tudo o mais  vem-se  fazendo o cortejo do livro. Muito barulho para dizer que" ler é bom", para dizer que "livro não morreu", "livros a mancheias", "livros ou cadeias" (rima não intencional), o que é (meia) verdade, mas para mim livro é um amigo íntimo, tão discreto que, ao ver alardeadas suas qualidades, um certo ciúme me ocorre. Um amigo reservado que dispensava plateias, queria só estar ali juntinho ao peito, aninhado ao dono e que, ao abrir-se, revelava -se ao sujeito, um sujeito que é seu mundo, seu leitor. É verdade que, desde a descoberta da imprensa que o difundiu, muitos livros viraram celebridades, saíram dos mosteiros, onde ficavam sob guarda dos monges - quem leu e viu O Nome da Rosa sabe do que estou falando. Os livros passaram a representar perigo e liberdade a partir de Gutemberg. Em meados do século XX, quando a democracia já se consolidava, nossos pais ainda escondiam de nós Bocaccio, Sade, Eça de Queirós , Henry Miller, D.H. Lawrence, Nabokov, e o jogo consistia numa excitante caça a esses tesouros pela casa. Temíamos ser surpreendidos e tal como dinheiro, alguns exemplares proibidos iam para debaixo do colchão. Quando não, às vezes recorríamos a uma espécie de  "câmbio negro" entre amigos para ter acesso aos "malditos". Era um frisson essa troca. Curiosamente, até hoje, guardo uma estranha sensação de invasão quando, ao estar lendo, alguém se aproxima e  lança os olhos sobre meu amigo.Um ciúme quase infantil.  Chegaram novos tempos - bem-vindos, é certo, quanto à liberdade -  tempos laicos, tempos de mídia, tempos de compartilhamento, de disseminação de bibliotecas, antes restritas às classes ditas letradas, e os livros  se popularizaram e passaram a requerer, como tudo o mais, difusão, marketing, eventos, enfim, barulhos, talvez barulhos em excesso, gente em excesso, rodas, vozes, não interiores, mas  lendo para o público. Enfim o livro passou a ser o caçador de leitores, não o caçado pelos leitores, condição definida por duas linhas: política de leitura por um lado e mercado por outra, muitas vezes simbioticamente. Quando o prazer de ler para mim era e é, sobretudo, ouvir a voz do pensamento, percorrendo as tramas ou as argumentações. A minha ida às livrarias era quase como ir à igreja,  como agnóstica que sou, era a minha igreja e, lá, ficava "perdida" entre estantes por horas. Hoje uma livraria, e às vezes, uma biblioteca, fazem parte do mesmo show; é uma romaria barulhenta, são pontos de disputa de últimos lançamentos de séries popularizadas no cinema e tevê, ou autores de autoajuda, e dos indefectíveis livros indicados pela escola.  Rara a presença ali do estranho-bibliófilo-de-óculos ou um leitor mais apurado, aquele que teve na leitura uma conquista gradual pelo cultivo paciente e alargamento do saber e  que, quando aparece, se vê atropelado pela volúpia dos lançamentos disputados comercialmente. Ou então (experiência própria) alguns livros só estão "disponíveis por encomenda", como certas joias ou bebidas raras. Atesto. Tente um Mito de Sisifo, de Camus, O homem Comum, de Philip Roth ou Relatório a uma Academia, de Kafka. Dirão, esse é um espaço democrático, certo, porém, a verdade é que poucas são as livrarias  prazerosas de se frequentar. As feiras e salões nem pensar, são eventos com alta exposição midiática. Então, da feição de coisa privada, íntima e única, o livro passou a ser - será ou revela só uma intenção ? - (mais um) objeto de consumo de massa. Mais vale o título usufruído "coletivamente". De preferência, acompanhado das trombetas e discursos. Parece certo preconceito ou passadismo meu. Pode ser. Pergunto se as gerações atuais têm o prazer  de abraçar e cheirar um livro, como algo íntimo, ou se  para elas o livro é mais um bem de consumo, cujo detentor, como em tudo o mais, precisa ostentá-lo a seus pares, como condição de pertencimento a um grupo ou época? Um cortejo muito concorrido, e que não seja um réquiem, onde ardem muita vaidade e exposição. Mas nem tudo está perdido. Você ainda pode pedir a vinda de seu amigo pela auspiciosa Internet. Sem retretas.

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

Frases de efeito por Ferreira Gullar

                                                                             

Frases de efeito                        POR FERREIRA GULLAR


Muitos anos atrás --e bota anos nisso-- escrevi uma série de aforismos sobre a crase e os publiquei no suplemento literário do extinto "Diário de Notícias", do Rio de Janeiro.
Um deles se tornou muito conhecido, a ponto de estudantes em greve, em Curitiba, o terem escolhido como lema de seu movimento. Estenderam uma faixa no refeitório da faculdade: "A crase não foi feita para humilhar ninguém".
Não demorou muito, apareceu alguém para dizer que aquela frase era de Machado de Assis. Logo surgiu outro que a atribuiu a Carlos Drummond de Andrade. Até a atribuíram a Rubem Braga, que, numa de suas crônicas, desfez o equívoco: a frase não é minha nem de Machado nem de Drummond; é do poeta Ferreira Gullar.
Não sou um frasista, muito embora algumas frases minhas tenham se tornado conhecidas. É o caso da que diz assim: "Não quero ter razão, quero ser feliz". Até agora ainda não apareceu ninguém para atribuí-la a algum escritor ou pensador famosos.
É verdade, porém, que já não sou o dono dela. Foi pelo menos o que pensei quando Cláudia, minha companheira, me trouxe de presente, no dia de meu aniversário, um copo que comprara numa loja de Ipanema: nela estava escrita a tal frase.
Eu a formulara, pela primeira vez, numa palestra que fiz na Flip. Falando sobre o conflito entre palestinos e israelenses, observei que ambos os lados alegam estarem com a razão e, enquanto isso, vêm se matando há mais de 50 anos. Acho que eles deviam parar de ter razão --disse eu então-- e fazer um acordo de paz. E contei também como, certo dia, minha namorada veio me encontrar para irmos ao cinema, mas começou uma discussão entre nós, cujo desfecho foi ela pegar a bolsa e ir embora. Eu fiquei ali, cheio de razão, mas triste para cacete. Então disse a mim mesmo: o que importa não é ter razão, mas ser feliz.
Veja bem, quando digo que não sou um frasista é porque não vivo de fato preocupado em fazer frases de efeito. De fato, o que procuro é formular de maneira mais sintética e clara possível, o que se aprende com a vida. De modo geral, as frases de efeito, quase sempre expressam, quase sempre, uma verdade aparente ou parcial, porque o que o frasista procura, menos que a verdade, é o efeito. Modéstia à parte, não é o meu caso.
Por exemplo, outra frase minha que ganhou certa popularidade diz assim: "A arte existe porque a vida não basta". Não se trata de uma sacação de feito e, sim, conforme creio, de um modo meu de ver a arte como algo que acrescenta à vida o que gostaríamos que ela tivesse.
E não é que descobriram que essa frase já tinha sido formulada por Fernando Pessoa? Confesso que não sabia disso, mas é natural que não soubesse porque o que li do grande poeta português foram os poemas.
De sua prosa, lia muito pouco, mesmo porque, se admiro ilimitadamente o poeta que ele é, não concordo com sua visão de mundo, seja espiritual, seja política. Mas fui para a internet e terminei encontrando a frase do poeta, que diz assim: "A literatura, como arte, é uma confissão de que a vida não basta". É, sem dúvida, muito parecida com a minha, mas não diz a mesma coisa.
A diferença decorre precisamente de que a minha visão de mundo não coincide com a de Pessoa: ele era espiritualista e eu, materialista.
Quando ele diz que a arte é "uma confissão de que a vida não basta", o que está afirmando é que o significado da vida não se limita à realidade material do mundo; essa realidade não lhe basta, ela só se completa com a dimensão espiritual. A arte e a literatura --particularmente a dele, Pessoa-- são uma confissão de que a vida só se completa no plano espiritual. A realidade material não basta.
Minha visão é outra e, portanto, outro o significado de minha frase. Quando digo que a arte existe porque a vida não basta, estou na verdade dizendo que a arte torna a vida mais rica, mais fascinante, mais encantadora. Mas essa frase não surgiu do nada.
Na verdade, acredito que o objetivo de arte não é, como se diz, revelar a realidade mas, sim, reinventá-la. Quando Van Gogh pinta o quadro "Noite Estrelada", está acrescentando aos milhões de noites reais, mais uma que só existe em sua tela. E reinventa, assim, a noite real.                
                                                                                                                      FOLHA DE SÃO PAULO 10/11/2013

ferreira gullar

Nostalgia por Tom Hanks

NOSTALGIA
Um prazer à moda antiga    TOM HANKS
Máquinas de escrever tornam tudo grandioso
RESUMO
Tom Hanks conhece bem o barulho atordoante que se pode tirar das máquinas de escrever. Desde 1978 o protagonista de "Forrest Gump" e "O Resgate do Soldado Ryan" coleciona várias delas. No texto a seguir, elenca três razões que, na sua visão, tornam as velhas peças robustas superiores a laptops e iPads de última geração.


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Como foi SÓ em 1985 que Mike McAlary começou a cobrir polícia para os tabloides de Nova York, o cenário que representava uma Redação em "Lucky Guy", peça de Nora Ephron com a qual estreei recentemente na Broadway, tinha processadores de texto, e não máquinas de escrever. Foi uma pena. Nós, da trupe, teríamos amado batucar desajeitadas, enormes máquinas de escrever, pelo simples som que elas fazem.
Bom, eu teria amado, uma vez que tenho pleno conhecimento do barulho atordoante que dá para se tirar de uma velha máquina de escrever manual. Eu uso uma dessas e também uso os correios-- quase todos os dias. Minhas vagarosas cartas e meus bilhetes de agradecimento, meus memorandos e minhas listas de afazeres, além de vagos --realmente vagos esboços de histórias são bagunçados, mas poucas coisas no meu cotidiano me satisfazem mais do que produzir esses papéis.
Confesso que, quando é trabalho de verdade o que tenho de fazer --documentos que exigem tanto rigor quanto um ensaio de fim de ano de faculdade--, eu uso um computador. O fluxo da escrita pede a fluência da tecnologia moderna, e quem não gosta de poder escolher uma nova fonte como Franklin Gothic Medium, Bernard MT Condensed ou Plantagenet Cherokee?
Para escritos desimportantes, do tipo que não vai além da sua escrivaninha ou da porta da geladeira, o prazer táctil de escrever à moda antiga não encontra comparação naquilo que se obtém de um laptop último tipo.
Teclados de computador emitem um tímido tec-tec-tec, do tipo que você ouve quando vai ao Starbucks --pode ser que o ruído venha de trabalho sério sendo produzido, mas ele parece pequeno e discreto, como agulhas de tricô das quais brotam pares de meias.
Tudo o que se datilografa numa máquina de escrever soa grandioso, as palavras se formam em miniexplosões: TCHAC, THAC, THAC. Um bilhete de agradecimento ressoa com o mesmo fragor que uma obra-prima da literatura.
O ruído produzido ao datilografar é uma boa razão para ter uma velha máquina de escrever --infelizmente, são só três razões, e nenhuma delas é conforto ou agilidade. Além do som, há o genuíno prazer físico que envolve o ato de datilografar; a sensação é tão boa quanto soa, os músculos das suas mãos controlam o volume e a cadência do assalto auditivo, de modo que o espaço ao redor ecoa o staccato das suas sinapses.
Você pode escolher o modelo da sua máquina de escrever que mais se encaixe com a sua identidade sonora.
Remingtons dos anos 30 fazem THICK THICK. Uma Midcentury Royal parece uma voz repetindo CHALK. CHALK. CHALK CHALK. Mesmo as máquinas de escrever fabricadas na aurora dos aviões a jato (suficientemente compactas para caberem nas mesinhas dos primeiros 707s), como a Smith Corona Skyriter e as joias do design da Olivetti, fazem FITT FITT FITT, como balas disparadas pela pistola automática de James Bond.
Escrever numa Groma, exportada para o Ocidente de um país comunista que não existe mais, soa a trabalho, trabalho duro. Feche os olhos enquanto você martela o teclado, e você se sentirá como um ferreiro dando forma a frases que saem, incandescentes, direto da fornalha da sua mente.
MOBY DICK
Faça essa experiência: escreva, no seu laptop, a primeira frase de "Moby Dick" e ela vai soar como chamaimeishmael. Agora repita o procedimento numa Olympia dos anos 1950 (tenho duas, caso você precise de uma) e observe: CHAMAI! ME! ISHMAEL! Use seu iPad para fazer uma lista de tarefas e ninguém vai nem notar --não que devesse. Mas datilografe a mesma lista numa velha Triumph, Voss ou Cole Steel, e o mundo saberá que você tem uma agenda a cumprir: ETIQUETAS DE BAGAGEM! EXTENSÕES! LIGAR PARA A EMMA!
Para ter uma máquina de escrever, é necessário ter espaço e renunciar ao luxo fácil da tecla "delete", mas cada centímetro do que se sacrifica em precisão se conquista em exuberância. Nem se preocupe em usar uma fita corretiva, líquido corretor ou papel translúcido, daquele que facilita apagar.
Não há por que se envergonhar das sobreposições e de cobrir com XXXXX uma palavra tão mal batida que um corretor ortográfico não seria capaz de decifrar. Essas cicatrizes serão um fator tão importante da sua escrita quanto o seu dom (ou falta de) para as palavras.
O aspecto físico da datilografia fornece a terceira razão para usar uma relíquia do passado como instrumento de escrita: permanência. Talvez somente palavras gravadas em pedra durem mais do que uma carta datilografada, porque a tinta de fato se impregna na fibra do papel, em vez de ser depositada sobre a sua superfície como acontece com um documento impresso a laser ou na definitiva IBM Selectric --o artefato que fez da máquina de escrever manual um objeto obsoleto.
Acerte um Y numa máquina alemã Erika e um verdadeiro martelo atinge a fita da máquina, levando a tinta até o âmago do papel, onde será visível para toda a eternidade, a não ser que você pinte algo por cima ou queime a folha.
Ninguém se desfaz de cartas datilografadas, pois elas são como peças de artes gráficas, tão singulares quanto impressões digitais, uma vez que nenhuma máquina manual grava o papel exatamente da mesma forma como outra.
E-mails desaparecem de qualquer servidor que não seja do Google ou da NSA. Mas saque uma Brother De Lux 895 dos anos 1960 para disparar um "A festa foi demais! Obrigada por sacudir nossos esqueletos até as três da manhã!" e daqui a 300 anos aquele bilhete ainda vai ter lugar na coleção de um aficionado, que o guardará com o mesmo zelo com que conserva uma nota fiscal de 1776 registrando a venda de 12 belos barris de cerveja.
A máquina em si pode durar tanto quanto as pedras de Stonehenge. Máquinas de escrever são peças robustas, feitas de aço, e foram pensadas para ser espancadas, como de fato são. Algumas teclas da Underwood do meu pai --comprada de segunda mão logo depois da guerra e usada durante o único ano em que frequentou a universidade-- estavam tão gastas pelo castigo infligido por seus dedos que acabaram deformadas e apagadas. A tecla S era só um cotoco. Eu a levei a uma oficina com a ideia de dar só uma limpada, mas ela voltou com todas as teclas novinhas. Adeus, papai, e maldito seja o funcionário da oficina.
De todo modo, eu ainda tenho a máquina, e ela funciona, assim como quase todas as máquinas de escrever que ocupam meu escritório, minha casa, meu depósito e o porta-malas do meu carro, uma coleção que teve início quando, em 1978, o proprietário de uma oficina se recusou a consertar a minha máquina de escrever, quase toda feita de plástico.
"Um brinquedo sem serventia!", o homem berrou. Sim, ele berrou. Ele apontou para prateleiras cheias de máquinas recondicionadas --tinham décadas de existência, mas todas funcionavam perfeitamente. "Uma máquina de escrever era uma máquina", gritou ele, "que podia ser jogada em pleno voo de um avião e continuaria a funcionar!".
Ele me ofereceu, por um bom preço, uma Hermes 2000 ("O Cadillac das máquinas de escrever!") que tinha uma alavanca para regular a tensão das teclas e cuja régua era a mais precisa e afinada que já se viu. Desde então, comprei a 3000, a Baby e a gloriosa Hermes Rocket: todas ocupam minhas prateleiras e cada uma delas é mesmo um carrão.
Não existe nenhum outro motivo --além de uma avareza mal dirigida (culpado!)-- que justifique alguém acumular centenas de máquinas de escrever velhas. Quase todas saem por uns US$ 50, a não ser que, digamos, Hemingway ou Woody Allen as tenham usado antes de você. As fitas se encontram facilmente no eBay.
Uma ou outra máquina de escrever dos anos 70 ainda pode ser deixada para seus netos ou ficar guardada numa garagem até o milênio que vem, quando um arqueólogo vai desencavá-la, limpá-la, lubrificá-la. Certamente em 3013 será possível renovar a tinta da fita, e uma carta batida a máquina poderá então ser expedida naquele exato dia --desde que a máquina não sobreviva à indústria de papel.
Pensando bem, acho que é bom eu começar a acumular itens de papelaria e rezar para que os correios sobrevivam.

domingo, 8 de dezembro de 2013

Comportamentos em lugares públicos (Erving Goffman)



“Ninguém pode se acomodar na falta de educação e sua brutalidade contagiosa. Livros são uma forma de paz” (Ana Candocha,  Twitter)

Neste artigo ressalto alguns pontos de reflexão importantes da obra de Erving Goffman (citada abaixo), conceituado sociólogo norte-americano, sobre situações a que "ajuntamentos sociais" – aqui sugiro as  bibliotecas públicas  - e outros estabelecimentos estão sujeitos, principalmente em sociedades marcadas por desigualdades (Brasil) e/ou  multiculturalismo (Shetland, citada pelo autor), cuja ordem, entendida como “delicadezas da conduta social”,  se encontra sob constante ameaça de desestruturação.


Conceitos aqui emitidos:

  1. Ajuntamento social – Conjunto de pessoas presentes durante um período contínuo de tempo e sua permanência, delineando uma situação social de interesse comum. Ambiente com possibilidade de monitoração em que um integrante se torna participante, em que os indivíduos modificam sua conduta, orientados normativamente. Sistema social em que as pessoas passam a sustentar transações significativas entre elas.
  2. Propriedades situacionais – conjunto de regras, expressas por idioma convencionalizado de deixas comportamentais e, nele, as pessoas descobrem sua capacidade de envolvimento ao ajuntamento.
  3. Ligação – Atenção, interesse, orientações, enfim, a capacidade de envolvimento. Pode-se entender como “pertencimento”, resguardadas as propriedades acima.

        Erving Goffman * nos mostra que em qualquer sociedade, situações diferentes serão cenários  das mesmas disposições normativas ou propriedades situacionais em um ajuntamento. Um indivíduo que é negligente, de alguma forma em uma situação, pode sê-lo sempre que se encontra diante de outros. Salvo uma pessoa com dificuldades de ordem orgânica  e mental (deficientes visuais e auditivos), muitas vezes ele não será capaz de manter as “gentilezas comunicativas” esperadas e serão “desajeitados” na maioria das situações. Quando o indivíduo se comporta de forma que outros considerem inapropriada, muitas vezes ele está “alienado” do ajuntamento ou “estranho” a ele. O significado que as pessoas ofendidas dão a um ato ofensivo é parcialmente determinado por sua sensação de que o ato foi intencional ou não. Entretanto, a dicotomia de seu sentido é complexa e [não é]  uma mera discussão do significado real dessas ofensas situacionais.
Podemos fazer as seguintes perguntas: o infrator terá capacidade e treinamento para entender o significado de sua ofensa? O ato é passível de controle físico do ator e se tiver esse entendimento, ele estaria disposto a mudar sua conduta, se notificado de seu significado e tivesse a oportunidade de fazê-lo? O ator tem razões atenuantes, externas para cometer a infração? Há uma classe de infração às vezes chamadas “atos de malícia” ou des(res)peito*, que implicam em arrogância, desdém e hostilidade profunda, os quais, aparentemente, sem nenhuma razão, são transmitidos aos que lhe são alvos. Esse infrator não modificaria sua conduta no momento em que recebe uma segunda chance. O que  é diferente da ofensa contingente, quando o infrator tem razão para seu ato fora de ocasião. Ele pode, por exemplo, rir ou ler algo em voz alta, não maldosamente, mas porque apenas achou algo engraçado. Quanto mais legítimas forem as razões do infrator, mais as ofensas contingentes serão desculpáveis, e menor a intencionalidade. Entre esses extremos, está o indivíduo que ofende porque está acostumado a uma linguagem e estrutura de envolvimento, diferentes daqueles sancionados pelas pessoas na situação. Ele tanto pode mudar a conduta, se compreender a significância de seus atos para os outros, como não ter o interesse, ou não estar disposto a fazê-lo. As testemunhas teriam razões para conceber o infrator como alguém que está alienado do ajuntamento e de suas regras, mas é preciso ver que as bases dessa percepção não são as mesmas. As bases para impropriedades podem ser:
 1º atos acidentais, provocadas por estados emocionais transitórios (cansaço, drogas, nervosismo, problemas) não-patológicos;
2º condições circunstanciais em que o indivíduo não está familiarizado com o idioma ritual das pessoas com quem se encontra. É fato que a relação de um indivíduo com um ajuntamento e ocasiões sociais têm a ver com suas relações com unidades mais amplas [comunidades] a que pertencem;
3º As impropriedades podem exprimir ressentimento particular do infrator a algo mais circunscrito (o estabelecimento ou alguém especificamente) do que a uma classe ou comunidade.
4º A conduta imprópria pode advir de uma resposta a uma condição (sensação) de exclusão por parte do infrator, o que pode representar uma forma de conflito entre ele e o estabelecimento. Em um estabelecimento, se um membro em particular pode servir como “guardião’ da ordem situacional, com a missão de garantir que todos os presentes mantenham um envolvimento apropriado, certos atos que são proibidos representam atos de desafio e meios de testar os limites do ajuntamento e [nele tentar estabelecer uma nova ordem]. Aquilo que o indivíduo considera “delicadezas de conduta social” são, na verdade, as regras para orientar o indivíduo em sua ligação com o ajuntamento. Mais do que famílias e clubes, o indivíduo pertence a ajuntamentos, e é melhor que ele mostre que é um membro razoável, porque a penalidade por quebrar regras é (pelo menos, em tese, deve ser) severa.

    Uma preocupação a mais, e mais grave, em relação a regras de comportamento em situações sociais, é derivado do fato de não se confiar que o infrator não vá se aproveitar de sua posição para propósitos de ataque, interferência ou abordagem, mesmo que a infração original seja inofensiva. É natural que para os que praticam o “idioma de envolvimento”que as regras sejam naturais, invioláveis e fundamentalmente corretas. As pessoas que as detém precisam de algum meio de se defender quanto a dúvidas sobre essas regras, questionadas pelas pessoas que as quebram. Não importa que falemos de um ou um grupo de infratores; a questão é se, num extremo, eles, os infratores estão em condições de impedir qualquer ação contra elas. Uma situação infracional não pode estar em posição de forçar os outros a aceitá-la. [Aí os limites da convivência foram ultrapassados].

  • O autor usou o termo “despeito” no qual cabe o conceito de “desrespeito”.
GOFFMAN, Erving. Comportamento em lugares públicos. Notas sobre a organização social dos ajuntamentos. Trad, de Fábio Rodrigues R.da Silva.  Petrópolis: Vozes, 2010.

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quarta-feira, 20 de novembro de 2013

O estranho mundo das palavras cruzadas

                       Palavras cruzadas ativa, no cérebro, áreas da linguagem e memória ...                 Alguns acharão graça, outros não, enfim, entrei nesse estranho mundo das palavras cruzadas há poucos anos, movida por preocupação com falhas de memória, pois bem: me vi como Alice, não no país das maravilhas, mas no país das esquisitices. 
Passada dos setenta, tenho também um certo vocabulário de palavras mortas e enterradas, mas as revistinhas de Coquetel, pelo menos as de categoria Difícil, excedem, teimam em desenterrar termos que provavelmente não se usam desde a colônia, talvez com o único propósito de "derrubar" o leitor. Fora as pegadinhas de sentido, dou alguns exemplos, e desafio o melhor lingüista de todos a decifrá-los, sem apelar para o Houaiss ou Aurélio (grandes):
No jogo, categórico e decisivo é terminante; tascas são tabernas; ulo é gemido; amargor é travo; branquear a roupa é decoar;  vadio é valdevino; ror é multidão; escuro é lúrido; transpassado é perstransado; tendencioso é viesado; eureca é heureca com H; enjôo é enojo; ufanismo é ufania; vegetariano é vegetarista; guerra é alfitena; manifestações de afeto são mogangas(!); energia e água são edifício verde; habituado é atreito; sangue derramado é cruor; sacrílego é nefas; falsa e ilusória é mentida. E por aí vai. Quem conhece essas estranhas palavras? Acho que, de meio em meio século, deveriam dar uma varrida nos dicionários. Se tem uma coisa certa que alguém disse, se não me engano Ítalo Calvino, é que dicionários são cemitério das palavras, mas algumas bem que deveriam ir para crematórios de vez.
 Isso é só uma pequena amostra. Alguns formuladores do jogo parece que procuram no cemitério das palavras esses zumbis da língua, como se isso colocasse à prova os conhecimentos de alguém. Ou quem sabe não eles mesmos matusaléns?
    Ainda há, o que eu considero mais grave, as "pegadinhas de sentido" nos enunciados:  quem faz guerra milita  - é inexatidão, o sentido se ampliou; quem é honesto e idôneo é capaz (!)- você pode ser capaz e não ser idôneo; punição legal é vindita; continuísmo é “doutrina” política e não prática;  severo é áspero; suave é sonoro; suposto é espúrio; rubor é vergonha e não vermelhidão. Aliás, até o severo editor do Word também ficou horrorizado, sublinhando de vermelho a maioria desses exemplos!
   Em conclusão, perguntarão: por que então não abandono as Palavras Cruzadas? Respondo: por teimosia e acreditar que, em termos de terminologia, pode-se aperfeiçoar, secularizar-se, testar conhecimentos sem apelar para arcaísmos, só com o intuito de não deixar o leitor "zerar". E também alertar para o ridículo, porque é ridícula tal estratégia!

  Só para ilustrar: já pensou alguém dizendo assim: “ Nas alfitenas, há muito travo e cruor e quem milita nelas sabe que o ulo da ror não admite mogangas...”  Ninguém merece, né?

quinta-feira, 19 de setembro de 2013

Digressões (de Ferreira Gullar) em torno de um osso

Reproduzo aqui uma interessantíssima crônica de Ferreira Gullar: Osso pensa? (Folha de São Paulo, 8/09/2013):

Quando pela primeira vez me dei conta de que meus poemas nasciam de um estado mental imprevisível, e o defini como um espanto, estava usando uma expressão de Platão. Ele afirmara que o conhecimento nasce do espanto.(...)Quando pela primeira vez me dei conta de que meus poemas nasciam de um estado mental imprevisível, e o defini como um espanto, estava usando uma expressão de Platão. Ele afirmara que o conhecimento nasce do espanto.(...) Isso pode ser provocado por qualquer fato, do mais raro ao mais banal, corriqueiro. E é o que mais me espanta: o meu fêmur que se choca com minha bacia, o ilíaco, e me faz, perplexo: "tenho dentro de mim um enorme osso, de que não me havia dado conta até este momento, em que senti chocarem-se, dentro de mim, um contra o outro. E a pergunta que surge é: eu sou esse osso? Esse osso sou eu? Formula essa pergunta, mas e osso, ele pergunta?"(...)
Mas vamos retomar a questão principal que me fez escrever esta crônica: se o espanto é a origem tanto do conhecimento quanto do poema, significa que a filosofia e a poesia são a mesma coisa? Essa é uma pergunta difícil de responder, mas me atrevo a dizer, antes de qualquer especulação, que não, que filosofia não é a mesma coisa que poesia. Sim, não é; não obstante, não apenas ambas nascem do espanto, como ambas implicam em reflexão.
Certamente, nem toda poesia implica reflexão em nível equivalente ao da filosofia. Há poemas que nascem quase que magicamente das próprias palavras, fazendo-nos pensar que alguém, que não o poeta, é que os inventou. E há também poemas de encantamento, que se alimentam mais da fantasia e da paixão do que desse espanto que gera reflexão.
Voltando à relação dos dois espantos --o do filósofo e o do poeta-- vamos tentar deslindar o que os distingue e o que os aproxima. Até onde posso vislumbrar uma explicação para tal problema, diria que, no espanto, não há diferença entre o filósofo e o poeta, já que ambos são tomados, inesperadamente, da constatação de que não há explicação para o que acabam de perceber: osso pensa? Osso pergunta?
A diferença, então, estaria depois dessa constatação, que é diferente no filósofo e no poeta. Salvo, melhor juízo, acho que o filósofo tem necessidade de explicar o fato que o espantou, e o poeta não; o poeta quer apenas dizer que se espantou, que aquilo não tem mesmo explicação; o que ele deseja, em suma, é registrar o inexplicável, afirmar o insondável mistério da existência.
É nisso, creio eu, que os dois diferem, uma vez que seja próprio da filosofia explicar a existência. O filósofo não se conforma com inexplicabilidade do fenômeno que o espantou e, por essa razão, tem que explicá-lo, inseri-lo no sistema de pensamento que ele, filósofo, elabora na tentativa de tornar o mundo inteligível.
Admitir que não há explicação para a existência seria o fracasso da filosofia que, neste particular, situa-se no polo oposto ao da poesia. Sim, porque, para o poeta "só o que não se sabe é poesia".

quarta-feira, 11 de setembro de 2013

Viviane Mosé e a pesquisa


"Seis anos é a idade em que a criança deve começar a ser estimulada a pesquisar,pensar e formar capacidade crítica", Viviane Mosé, autora de “A escola e os desafios contemporâneos" (veja em http://www.eliomar.com.br/wp-content/uploads/2013/09/160698.pdf )
 ”

Esta parece uma constatação óbvia e até simples, mas o que Viviane defende é revolucionário: substituir a aula pachorrenta pelo exercício da curiosidade envolvida na pesquisa, coisa que lá, pelos idos do início do século 20, Bertrand Russell defendia. E por isso quero falar nela. Voltando à contemporaneidade, o que a Internet tem feito é aguçar a curiosidade. A pesquisa, uma palavra que assusta os menos avisados, é possível desde as fases iniciais do ensino. Quando estimulamos  uma criança a selecionar uma cor ou um objeto dentre outras, já é uma pesquisa em gestação. Pesquisa é um ato de recorte, de seleção e pode ser feita do modo mais simples ao mais complexo. Lembro-me de um livro-jogo que, até bem pouco tempo, fazia sucesso entre a garotada: Onde está Wally?(1) ali estava um exercício primário de seleção. Achar Wally e os objetos de Wally exigia uma acuidade e uma concentração,  tal como a leitura gráfica exige, sendo o próprio jogo uma leitura por imagens. Na pesquisa, como processo de desenvolvimento cognitivo, procuramos aqueles objetos que estão relacionados entre si e os evidenciamos, da forma como Wally estava relacionado com sua touca, seu sapato, sua bengala etc., com a diferença que a representação na pesquisa formal é verbal, são as palavras, e não as figuras, que necessariamente guardam relação entre si, como árvore e plantas; mar e peixes. Nas fases iniciais, as relações são bastante simples: a árvore pertence ao mundo das plantas; os peixes ao mundo aquático, as pedras à terra etc. e se dá por associação. À medida que a escolaridade aumenta, a pesquisa já vai tomando a forma estruturada, com os assuntos e suas relações necessariamente interligadas e mais complexas. Se eu estou tratando do clima de um país, os elementos aos quais o estudante deve se ater em um verbete  é a posição desse país na superfície terrestre, a sua latitude, seu relevo e hidrografia enfim, tudo que interfere com clima, o que deve ser orientado pelo professor, previamente ao trabalho. Esses elementos recortam o tema. Evidentemente que o professor não abrirá mão do recorte preciso em cima de qualquer tema, do contrário a pesquisa estará invalidada pelo falta de foco, será perdida. Se a pesquisa é sobre clima, não tenho que falar de culinária. Veja a pesquisa como um foco de uma lanterna, que não é difuso. Outra coisa importante é o enunciado. Se eu desejo saber sobre os meios de transporte no século XIX, eu estou querendo tudo sobre esses meios naquele século, portanto uma alentada dissertação. Se eu desejo saber quais eram os meios de transporte do século XIX , eu estou pedindo apenas para enumerar. Se eu estou pedindo para dizer como eram, eu estou pedindo para descrever. Se eu pergunto  por que assim eram, estou  exigindo uma argumentação. Cada enunciado demandará por parte do estudante um discurso diferente, o que é um dos aspectos mais importantes da pesquisa na construção textual. Então, quanto mais genérica a pesquisa, menor a seleção; quanto menos genérica, maior a seleção. Uns equívocos muito frequentes são aqueles em que a amplitude da pesquisa é imensa: o professor pediu "Europa", mas como Europa? Se o estudante consultar o verbete de enciclopédia ele vai encarar, coitado, umas dez páginas; na Internet uma profusão de sites, embora a Wikipedia forneça dados relativamente resumidos, ele é um site colaborativo e passível de erros. O importante é que se diga o que se deseja saber sobre a Europa, ex.  se se distribuir a pesquisa entre os alunos pode se pedir a um grupo que  fale do grupo de línguas de um modo geral; a outro das moedas, outros mais do IDH e das etnias, assim por diante, sempre explicando o que cada item representa. Muito se pode falar ainda de pesquisa, mas, sobretudo, quero dizer que a entrevista de Viviane Mosé me motivou a tratar do tema, uma luzinha no fim do túnel. Confiram.

(1) Onde está Wally? de Martin Handford. Publicado no Brasil pela Martins Editora.

sábado, 10 de agosto de 2013

Ainda Beatriz Sarlo: bibliotecas, centros tradicionais de interação?

Retomo aqui algumas questões sobre as quais dialoguei com o texto de Beatriz Sarlo(1) para refleti-las, particularmente com respeito às bibliotecas:
    As bibliotecas são, de fato e direito, centros tradicionais (que segundo a autora, “deixaram de ser centros de interação”)?

1. Sim. Por sua função patrimonialista (“preservar”) e cumulativa, porém num ordenamento sistemático do conhecimento e sob paradigmas de qualidade (canônica), que norteiam o processo de formação do acervo;

1.1 – Este processo de desenvolvimento do acervo se dá segundo um critério de autoridade, estabelecida por relações de prestígio “ entre as elites letradas”, especializadas ou não, formalmente organizadas,tais como as associações de autores, universidade, editores, bibliófilos, academias e críticos,em todos os seus níveis, desde municipais, federais e internacionais; e será essa autoridade mesma que responde a um projeto de qualidade, no campo da seleção biblioteconômica;

2. A configuração tradicionalista também se reflete nos aspectos da organização, cujos meios ainda se conservam quanto à classificação (universal) e topográfica(decimal) dos livros para o público – esta é ainda uma parte devedora das bibliotecas em inovação e acessibilidade; 

 3. É, sim, tradicionalista quanto à circulação, marcada pela obsessão das “perdas e danos” (“tombar” livros ainda é uma prática comum) e certa sacralização, o que é menos observado em outros bens culturais. É lógico que, sem livros, nenhuma biblioteca existe, porém, que se oxigene essa circulação quanto a eventuais (e mais comuns do que se revela) perdas. Hoje podemos ficar muito mais seguros quanto a isso, porque a tecnologia permite preservar originais  em matrizes não impressas em papel. Não menos comum é a prática de manterem livros em desuso (não os raros) em depósitos de bibliotecas, por anos ou décadas, porque há “medo” do descarte. Tal coisa ocorre por falta de políticas públicas claras. É necessária forte profissionalização nessa área. Ao contrário do médico, o bibliotecário tem de escolher, sem fazer dessa escolha uma “escolha de Sofia”*, sábia e seguramente, qual(is)livros  e em que condições, devem(m) alimentar a cadeia de "mortais". Esse é um elemento fortemente tradicional, pois para livros também se aplicaria  uma lei de Lavoisier própria: a de que nada se perde e tudo se transforma. 

Uma frase que me deixou a meditar foi quando Sarlo diz:os desejos tendem assemelhar-se, mas sua realização não” (107) É bem verdade que o público de biblioteca a freqüenta: 1º por seu (dela) papel social – ele não pode comprar um livro;2º, ele não tem onde armazenar livros, 3º, ele só necessita de livros temporariamente; 4º, ele vê a biblioteca como mais uma possibilidade de lazer. A autora está se referindo ao acesso de um bem, no nosso caso livros, evidentemente, entre os usuários que não podem adquiri-los.Via de regra, quem os deseja e pode comprar, não irá a bibliotecas, mas às livrarias. E num segundo momento, esgotado o interesse, poderá se desfazer deles, doando às bibliotecas e quanto a isso, não foram poucos acervos primorosos a se  formarem por esse meio desse tipo de circulação. E muitos desses acervos cumprem perfeitamente a tarefa de prover os que desejaram este ou aquele título, mas que não têm a posse dele, mas somente a fruição. O que ameniza,  como ele diz, a desigualdade, mas não a supera! 

Pergunta-se: quando as desigualdades acabarem, apenas restarão as bibliotecas especializadas? Nessa hipótese de todos terem poder aquisitivo, as bibliotecas gerais  perecerão? Não, primeiro porque a capacidade das bibliotecas armazenarem obras supera  a da maioria dos colecionadores particulares. Segundo, porque seus sistemas de informação superam a capacidade dos motores de busca recuperarem seus conteúdos de modo estruturado, por mais que  os bilhões de kbytes dos sites oferecidos na Internet sejam superiores em volume aos dos bancos de dados das bibliotecas.   Ao contrário dos sistemas de bibliotecas, os recursos informacionais eletrônicos, (os chamados portais abertossão pulverizados, quânticos; nos sistemas de biblioteca esses recursos não se organizam por hipertexto e, sim, por técnicas biblioteconômicas - indexação, tesauro, catálogo etc. O usuário da informação, que não seja treinado não conta com os meios seletivos para satisfazer sua indagação  na medida de sua necessidade e perfil, e no que se refere a fontes confiáveis,  à profundidade e à adequação ao seu nível cultural. Por isso os sistemas de bibliotecas são vantajosos em relação aos portais, e o bibliotecário passa a ser fundamental em sua tarefa de educador da informação. 
Mais dramática ainda é a situação para aqueles que carecem de “ferramentas cognitivas para saberes ligados à palavra, ao raciocínio lógico e matemático, à expressão lingüística e a argumentação [retórica], indispensáveis ao [exercício] no mundo do trabalho, tecnologia e política” ( 114 ) Não são, porém, só os meios eletrônicos que ameaçam a leitura. Toda e qualquer leitura requer essas ferramentas. Concordo, no entanto, com Sarlo sobre o fato de que a rapidez da leitura [nos meios audiovisuais] não habilita o leitor para “a capacidade intelectual de longa concentração”, em tese característica do texto, para o qual é crucial não se ter pressa. Diz ela: “Aprendizado implica em dificuldade e distanciamento. Aí permanece uma necessidade de intervenção [escolar] forte e  não baseada no espontaneismo dos sujeiros (115). Esse espontaneísmo ou um "novo" autodidatismo eu venho acusando, e com preocupação, em muitos artigos nesse blog, quando as políticas de leitura vêm a reduzir a importância do aprendizado na leitura.
As bibliotecas continuarão tradicionais sim, ainda bem, no que elas tem de mais essencial: o requisito dos saberes mencionados, a universalidade, a circularidade e não pulverização do conhecimento.

* Sophie's Choice (br / pt: A Escolha de Sofia) é filme estadunidense de 1982, do gênero drama, dirigido e roteirizado por Alan J. Pakula e baseado no romance de 1979 de William Styron.(Wikipedia)
SARLO, Beatriz. Culturas Populares, Velhas e Novas. IN: Cenas da via pós-moderna/ intelectuais, arte e videocultura na Argentina. Rio e janeiro: Editora da UFRJ,P 100-22



segunda-feira, 22 de julho de 2013

Recortes de Beatriz Sarlo


 Beatriz Sarlo, renomada intelectual argentina, com quem só tive contato por fontes e indicações diversas, me surpreende, por um lado pela sincronicidade de alguns aspectos de seu pensamento com ideias que tenho defendido; por outro, pela provocação que coloca em ebulição, não intencional, mas implicitamente o papel do bibliotecário e, intencional e explicitamente, o do professor no mundo de hoje. Minhas intervenções estão entre chaves e negrito. Alguns trechos abaixo:
  
“Velhos  centros tradicionais de interação – bibliotecas populares, comitês , clubes de bairro – deixaram de ser os lugares  onde, no passado, definiam-se perfis de identidade  e sentido comunitário”(87) [Em muitos casos, interesses políticos se apropriaram deles, ou via institucional, ou por influência de grupos privados. Nós, bibliotecários e professores, como parte desses centros tradicionais, talvez devêssemos refletir sobre o nosso papel nesse contexto] ]

“Os mais jovens não encontram [ mais] nesses espaços [“Lugares ainda dominados pela Cultura da Letra [grifo 1] e pela relação individual"] nenhuma das marcas culturais que interessaram a outros jovens, trinta ou quarenta anos atrás. [... tal afirmação é verdadeira. O que se tenta hoje é reduzir-se o discurso, ou sumariamente, como na obra infantil de Monteiro Lobato e outros "clássicos" ou com adaptações, muitas de qualidade duvidosa]  Hoje a cultura juvenil é (...) a mais dinâmica das culturas populares e não populares e (...) mais do que pelo pertencimento social [desterritorialização], as experiências culturais se recortam pelas pirâmides das idades”, [no entanto] o único obstáculo eficaz contra a homogeneização cultural são as desigualdades econômicas – os desejos tendem assemelhar-se, mas sua realização não” (107) [embora a homogeneição cultural possa se dar, parcialmente, via equipamentos públicos, não há apropriação privada por esses jovens (não têm computador em casa), são "clientela" da inclusão digital, que como toda política pública tem sido entendida como acesso, enquanto acesso é só parte da inclusão; como no ensino, é necessário qualidade de acesso, com a ressalva de que a satisfação por ter acesso não é a mesma que a de ter posse] 
“Por um lado, os letrados que detinham o monopólio da legitimidade cultural, hoje se vêem desafiados por novos mecanismos de legitimidade. Não podem os letrados mais legislar sobre o gosto, [grifo 2] [Verdade. isso tem a ver com, por exemplo, uma política de leitura voltada para a Literatura e minimizando o impacto das tecnologias de informação no cotidiano dos jovens e apontando o livro na sua expressão tradicional como a "salvação"contra a homogeneização midiática] porque outros centros legitimadores ["menos nobres"] ditam a moda: a cultura audiovisual escolhe seus próprios juízes e reconhece a força do número, uma vez que seu negócio está na ampliação incessante de público, mais do que na distinção elitista de grupos”. (108)     [ também em nome de uma excelência formadora da literatura está havendo, já há algum tempo, uma aproximação do livro com formas midiáticas de promoção, via produção cultural, ludicismo e espetacularização]" Seja como for, as culturas populares desvaneceram-se; [Creio que Sarlo se refere ao amálgama de influências; isso se torna claro na expressão musical. Por outro lado, por um processo que as literaturas ditas étnicas tentam resgatar, as manifestações tradicionais acabam se folclorizando, fixando-se em calendários culturais e regionais  como as culturas de origem negra e indígena, e nesse aspecto, bibliotecas,museus instituições de ensino e setores de produção editorial se consolidam também como centros tradicionais]; também esfumaçaram os perfis estáveis que distinguiam as elites do poder.[Nossos ídolos seculares não são mais os mesmos, tendem a ser artistas "celebridades"vulgares e esportistas, enquanto os intelectuais, políticos e cientistas brilham para e entre seus pares] (...) A universalização do consumo material e a cobertura total do território pela rede audiovisual  não acabam com as diferenças sociais, mas diluem algumas manifestações subordinadas a essas diferenças (109)” [cultura e indústria fake, irradiação da moda e linguagem televisiva etc.]
“O caso das línguas é particularmente significativa. Durante décadas [talvez séculos] a língua correta era o ideal [grifo 3] da escola – hoje desaparecido(...). [Esse é o ideal da cultura letrada, legitimado pela escola, porém sem sucesso, porque em vez de empoderar o discurso do estudante, coloca-o numa postura de contemplação e admiração - oh como é bela a arte, oh que belas letras! -, e não o engaja na produção, mas na reprodução do discurso letrado, sem sentido e defasado para ele.Outra ressalva a fazer é a de que, para o sucesso ou para o insucesso, a reprodução da cultura letrada permanece como uma  ferramenta de inclusão no mercado] A vitalidade e a criação lingüística passam por caminhos completamente estranhos à cultura letrada; a homogeneização lingüística desbasta  as diferenças de região , classe ou profissão.(...)" [Objeção minha: não diria "estranheza", mas de rejeição, uma vez que a cultura letrada é encasulada dentro de cânones para resistir, não se deixar penetrar, ou garantir sua sobrevivência]
“Os símbolos de mercado, igualmente acessíveis a todos, tendem a desvanecer os símbolos da velha dominação. (...) Não geram o mesmo tipo de diferenciação  incontornável [tanto faz ] o usufruto de uma biblioteca familiar ou a posse de uma motocicleta japonesa. (...) Aquilo que era cultura letrada – então a única cultura legítima – já não organiza a hierarquia das culturas e subculturas. [Confinam-se nos centros tradicionais de irradiação de cultura, porém ainda dão as cartas quanto à inclusão social] Os letrados diante disso lamentam o naufrágio de valores  sobre os quais estava baseada sua hegemonia ; (...) desconfiam  das [e temem]as promessas do presente; os segundos, neopopulistas, (...) acreditam fervorosamente nelas. [Tanto os tradicionais quanto os pós-modernos pecam por acreditar no espontaneísmo, os primeiros via leitura e os segundos via tecnologias] (...) " Primeiro, os apocalípticos, velhos legitimistas, defensores irredutíveis das modalidades culturais prévias à organização audiovisual; segundo os integrados (2), defensores assalariados vocacionais das indústrias audiovisuais e sua nova legitimidade cultural. Na maioria dos países da América Latina, a escola pública é hoje o lugar da pobreza simbólica, onde professores, currículos e meios materiais concorrem com [eu diria perdem para]os meios de comunicação, q são [também]de acesso gratuito e abarcam os territórios nacionais [e internacionais] (...) A cultura letrada está em  falência no mundo – os norte-americanos vêem com inveja os resultados de exames de crianças japonesas submetidas a regime de samurai para evitar o declínio do desempenho; a escola francesa lamenta a queda dos padrões (...); multiplicam-se os exemplos mais tardios das capacidades elementares [vejam os estudos de defasagem em todos os níveis no Brasil, que repetidas vezes apontei como obstáculo À leitura(112); vivemos uma crise de alfabetização e, com ela, da cultura da letra, embora os otimistas [integrados] celebrem as habilidades adquiridas com o zapping e os videogames(...) Afirma-se que a escola não estava estruturada para advento da cultura audiovisual, nem as estruturas educacionais foram modificadas, com velocidade, às transformações dos últimos anos. (...) Não se trata apenas da questão de instrumento técnico e sim de mutação cultural (113): a escola poderia beneficiar-se das habilidades adquiridas no videogame, dos conteúdos da mídia, da velocidade das respostas à superposições de imagens; (...) [E importante]pode-se questionar se tais habilidades são suficientes  como ferramentas para saberes ligados à palavra, ao raciocínio lógico e matemático, à expressão lingüística e a argumentação [retórica], indispensáveis ao [exercício] no mundo do trabalho, tecnologia e política.[grifo 6] [Essa capacitação não se dá nem na cultura dita letrada hoje. Essa é a essência de toda dificuldade em relação ao produto ou bem cultural livro de que tenho falado] A rapidez da leitura [nos meios audiovisuais] não habilita para a capacidade intelectual de longa concentração [grifo 7] (...), nem preparam para o manejo de sofisticadíssimos programas como hipertexto [ A maioria dos usuários fazem uso da Internet como consumidores, sem atentar para os processos].(...) A aquisição de uma cultura comum  - ideal democrático – pode ser reinventado com um sentido de maior pluralismo  e respeito às diferenças, ao estranho e supõe uma série de recortes, e não, de continuidade frente ao cotidiano (...) Aprendizado implica em dificuldade e distanciamento [frente ao desconhecido]; permanece aí uma necessidade de intervenção forte e  não baseada no espontaneismo dos sujeiros (115) 
O adestramento dos espectadores de Xuxa ou dos pensadores de videogames pode ser utilizado até certo ponto: logo, logo, esses espectadores e  jogadores deverão tornar-se leitores de uma página que requer habilidades ausentes nesse mundo [midiático]. Numa escola forte e intervencionista, os letrados impuseram aos setores populares muitos valores, histórias e tradições. Aquele também foi um espaço laico, gratuito e igualitário, onde os setores populares puderam apropriar-se de instrumentos culturais para empregar em seus próprios interesses (118)”
Assim como as culturas letradas não tornam a seus clássicos, senão por meio de transformação,deformação e ironia [grifo 9: adaptações, provavelmente na expressão argentina], as culturas populares não podem pensar mais nas suas origens, a não ser a partir do presente e, de todo modo, pressupor suas origens já é algo problemático.(119)“Se se quer criar condições para a livre manifestação dos diferentes níveis culturais de uma sociedade, a primeira dessas condições deve ser a garantia de acesso democrático aos armazéns [grifo 11] onde estão guardadas as ferramentas : forte escolaridade e amplas oportunidades de opção entre diferentes ofertas audiovisuais [públicas?]que concorram com as repetidas ofertas dos meios capitalistas (121)”[Ou seja: parafraseando Maquiavel, "se não puderes derrotar teus inimigos, junta-te a eles].

 SARLO, Beatriz. Culturas Populares, Velhas e Novas. IN: Cenas da via pós-moderna/ intelectuais, arte e videocultura na Argentina. Rio e janeiro: Editora da UFRJ,P 100-22

                                                                                     


sexta-feira, 12 de julho de 2013

As faces do Face


O Facebook é algo que é "para o bem e para o mal", diz o senso comum. Reiterando esse quase adágio e abusando da constatação de Berthold Brecht - "que tempos são esses em que vivemos afirmando o óbvio?", é isso mesmo. Duvido que Zuckerberg tenha premeditado o que seria essa Hidra de Lerna, um monstro mitológico que, cada vez que tinha a cabeça cortada, nasciam duas, no caso do Face não são duas, mas milhões de cabeças em conflito ou em harmonia e, cada vez mais, uma pirâmide gigantesca, em movimento e devorando, amoral, os desejos, o Bem e o Mal, as virtudes e as contradições humanas, ora ao atirá-las à ação, botando vidas em circulação como nas passeatas, ora tirando-lhes o sangue e a alma, como nas minorias fundamentalistas e violentas - sim, porque assim como cidadãos se aglutinam, entre eles há gente raivosa e gente "do mal" também. Se é para construir, também é para destruir, porque diante deste monstro cibernético, por mais que as pessoas se disfarcem em risonhas máscaras - à semelhança de Guy Fawkes (foto) -  de felicidade e alegres mensagens de "elevação espiritual" e alta estima, a vida é dura para a maioria e existe, entre outras possibilidades de escapismo, o Face, cujo nome melhor talvez fosse Espelho ou Mirror, especialmente dos desejos de ser o que não se é, de ser visto, de ser amado, até de ser odiado mesmo que por vaidade, como uma autoestima às avessas, enfim, a despeito de qualquer mérito moral, Zuckerberg formatou uma rede de relacionamento que, segundo se diz, hoje é uma "nação"- multicultural - entre as maiores do mundo, só inferior em população à China e à India, multi (meta)linguística, porque afinal fala-se da vida, e consequentemente, de nós mesmos. É o quinto poder, com chance de alçar a primeiro, quem duvida? Mas o que me chama atenção é que ele é também uma espécie de uma giga-cultura sob a lâmina de um giga-microscópio. Pense quem afinal  você é no meio dessa multidão, senão  um privilegiado micróbio pensante! Isso é tão grande, tão grande que, ao contrário do que parece exposição, é anonimato puro, você é sim, o tão mal-falado  anonymous, o anônimo, contra o vento e contra a (sua) vontade. E que para ser notado, muitas vezes, precisa chegar ao ridículo ou patético. Ou mesmo ao bizarro, na acepção mais extrema. Sinto decepcioná-los.Quanto maior é o Universo, menores somos, à exceção de quando juntamos nossas forças. Êta senso-comum!

domingo, 5 de maio de 2013

O barão e o leitor





Tive a oportunidade de ler o livro O Barão Nas Árvores, do prestigiado escritor italiano Ítalo Calvino (1923-85). Nele, o autor aplica  grande parte - pelo menos as quatro primeiras -  das seis qualidades que, para ele,  apenas a literatura pode salvar - leveza, rapidez, visibilidade, multiplicidade, exatidão e consistência (1). É uma narrativa fluente, viva, e ainda nos oferece uma ambientação e um panorama dos costumes do século XVIII europeu - a Penúmbria era essa Europa -  com lances de romance de cavalaria - romantismo "capa-e-espada"- e um humor à la Cervantes, no que se refere às marchas e contramarchas, principalmente amorosas, na vida de Cosme, o Barão de Rondó. Mas o que é a marca do romance é o fato do herói (às vezes anti-herói) sobreviver em árvores, sem "jamais descer", em razão de sua resistência aos costumes e tradições autoritárias de sua família de origem fidalga. Sua experiência nessa condição, ora flertando com o Bem, ora com o Mal, mas sempre perseguindo o que considera justo, é múltipla, em razão de grande diversidade de personagens e situações. O que chama a atenção é que, à medida que se desenrola a ação,  mais Calvino exige do leitor a "suspensão da descrença", embora pareça o tempo todo tentar nos fazer crer  que é possível  sobreviver sobre árvores. Evidente que essa capacidade (de suspensão de descrenças, não de viver em árvores) é muito mais acentuada entre crianças e adolescentes, estão aí as séries, por exemplo, Senhor dos Anéis e Harry Potter, sucesso entre esses leitores jovens. Talvez Calvino tentasse uma incursão - frustrada - por aí. No entanto, mal comparando, a diferença  a destacar sobre o italiano em relação aos ficcionistas "para jovens" é o incomum refinamento descritivo que arrisca tornar o romance híbrido, ou seja, uma exuberante fantasia que o torna, por outro lado,mais apreensível pelos adultos, e adultos cultos,com certo, digamos, "verniz" para absorver uma narrativa com a mesma agilidade com que se trocam fatos e personagens históricos  ( entre eles Napoleão), idiomas diversos  e misturados às falas, e  livros, pois o protagonista os consegue de um livreiro judeu - sem jamais sair de suas árvores!  Não recomendaria, por isso, o Barão das Árvores aos jovens? Para mim, que não sou versada nem em século XVIII nem em idiomas, sim, você nem precisa ser um conhecedor dos episódios ali narrados, curtos, mas nunca  superficiais. Você  pode encarar o livro como uma alegoria na qual esses fatos estariam como que embalados pela natureza propriamente dita - as árvores como palco da ação - e pela natureza  humana, essa sim diante da qual nada é absurdo.




(1) Ítalo Calvino as descreve magistralmente essas qualidades em Seis Propostas para o Terceiro Milênio (Companhia das Letras)

quarta-feira, 3 de abril de 2013

A biblioteca e o gargalo


Insisto, há pelo menos dez anos,- e tenho apresentado inclusive em congressos -, no fato de que a "falta de hábito de ler" e logo, de frequentar bibliotecas, não está nos déficits nem de livros nem de bibliotecas (mesmo que eles existam), ou seja, no acesso: defendo a biblioteca na sua concepção tradicional: é um espaço de leitura e cultura, mesmo que essa leitura/ cultura se desenrole em diferentes suportes: mídias impressas ou multimeios, e suas linguagens próprias. Defendê-la como   espaço de lazer é propor uma competição com outros bens culturais e colocá-la de saída em séria desvantagem. Biblioteca  é onde podemos relaxar, compartilharmos de um silêncio nas salas coletivas, da concentração necessária para nosso crescimento e de uma troca entre autor e leitor de uma forma produtiva. Portanto um espaço que precisa ser marcado por sua característica própria, que há algum tempo as bibliotecas vêm perdendo. O espaço social (de eventos e atividades) deve estar circunscrito e  corresponder ao que o acervo oferece.  Porém, como tenho repetidamente colocado (e pouco tenho sido ouvida) é que temos um sério gargalo e que se refere a um requisito que os responsáveis pelas políticas têm esquecido - intencionalmente ou não - a de que para se ter leitores é necessário letramento adequado e que por mais se invista em incentivos à leitura, mantido esse quadro,os resultados serão pífios na formação do leitor usuário dos livros. Observem o trecho em destaque, principalmente, sobre o potencial leitor que "não se tornou usuário da língua escrita" e  portanto não é frequentador de bibliotecas. Vejo nesse gargalo uma das razões pelas quais as bibliotecas em geral padecem de alcance. O artigo abaixo ilustra nessa matéria publicada em 27 de março de 2013 pelo Jornal da Cultura (site abaixo): 
Vejam a matéria:
Todos os anos, o governo aplica provas desenvolvidas exclusivamente para avaliar a educação brasileira. Essa iniciativa ainda não é parâmetro de qualidade no ensino, se levado em consideração que o Brasil ocupa o 88º lugar no ranking de educação da UNESCO.
Os índices são preocupantes — de acordo com Instituto Paulo Montenegro, aproximadamente 75% das pessoas entre 15 e 64 anos não conseguem ler, escrever e calcular plenamente. Dessa porcentagem, mais de 60% são analfabetos funcionais e 7% considerados analfabetos absolutos.
Segundo um levantamento feito em 2010 pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), o Brasil possui 30.558 milhões de analfabetos funcionais.
“Os números ainda são alarmantes numa sociedade supostamente democrática. E quando a gente vai entender melhor esse quadro do analfabetismo, a gente percebe outros problemas, que não é apenas o sujeito que não sabe ler e escrever, mas aquele que passou pela escola, que supostamente deveria saber ler e escrever e não se tornou um usuário da língua escrita. A gente sabe que muitos alunos chegam no 7º anos da escola sem saber ler e escrever. Isso mostra que a escola também não está cumprindo o seu papel”, explica a Silvia Gasparian Colello, professora e pesquisadora da Universidade de São Paulo (USP).