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quinta-feira, 29 de março de 2012

Organizando a biblioteca segundo o leitor

Relatar uma experiência que compreende, acima de tudo, observações do cotidiano em uma biblioteca sobre abordagens dos leitores, quanto à informação, é apontar os elementos de cultura técnica e do senso comum em conflito e demonstrar o quanto este pode se refletir nos processos informativos de modo a desconstruir categorias fixas e “imutáveis” herdadas da tradição e que não dão conta das necessidades do usuário, porque não respeita seus modos de abordagem, a sua linguagem e não atende a suas necessidades. Trata-se uma nova versão da máxima parafraseando a Constituição: todo poder emana do leitor e em nome dele será exercido.
Em primeiro lugar, sob aspecto organizacional, deve ser admitido como lei essa sim, a única a ser imutável, o acesso direto. A biblioteca deve ser explorada pelas crianças à exaustão. E In-loco! Só assim acontecerão as descobertas. Quantas vezes, percorrendo as estantes, elas não descobrem algo melhor do que o que estão procurando? A função nas bibliotecas escolares e públicas é de promover a familiarização, o contato, a experiência da leitura, sem restrições de acesso.
Tradicionalmente o que temos? Um sistema em que o meio (seu conteúdo impresso ou não) – o catálogo - determina a forma pela qual a informação estará disponibilizada. Assim basta que se apliquem as regras e está tudo resolvido. Invertemos. O leitor é quem vai ditar como a informação será disponibilizada. Antes de “arrumar e catalogar”, vamos observar como o leitor pergunta.Uma biblioteca deve estar preparada para dar respostas, como um oráculo. E as respostas se encontram ao se entender sua estrutura organizacional e sua visão de conjunto, mesmo quando não existam catálogos. Os catálogos, no que se refere a recuperar informação, ao contrário do que se preconiza, devem ser à imagem e semelhança do seu leitor, que não é uma entidade técnica, abstrata ou burocrática. Em minha biblioteca, precisava reunir tudo que tinha sobre Brasil. Ou criava uma categoria “Brasil”(981?) ou os livros ficariam dispersos fisicamente em suas classes política, história, geografia etc,.e o usuário dependeria do catálogo. Insisto que o uso do catálogo é importante, mas que o usuário não deve depender dele e se furtar à experiência prazeirosa e salutar do "bom vizinho"(1). O catálogo não é o espelho do desejo. Não há solução técnica para tal caso. Apenas o bom senso, uma estante e uma legenda: Brasil –de 00 a 900. Contudo, não se pode pura e simplesmente dispensar um conhecimento acumulado, quando ele serve para nortear e não obstaculizar os passos do leitor, como normalmente acontece nas bibliotecas que valorizam a complexidade técnica. A forma como está organizado o acesso por si só pode garantir uma praticidade que permite ao usuário achar a informação com relativa rapidez, mesmo quando esta é específica. É preciso criar uma estrutura partir dessas procuras, e relacioná-las ao todo a que hipoteticamente pertence. Por exemplo, uma procura pelo assunto “vacinas” , por que estará em medicina (610) e não em saúde pública (classe 300?) Saúde compreende não só categorias médicas, mas bem-estar psicológico e modo de vida (classes que estão distantes na tabela de classificação)! Então é preciso estarmos atentos às inúmeras facetas para reunirmos assuntos que aparentemente “deveriam” estar hierarquicamente dispostos como manda a disciplina, mas que na realidade não estão. Mas o que difere essa organização das chamadas tradicionais? Ela se pretende menos especializada. Assim, cada classe não será um corpo de conhecimentos fechado. São os grupos temáticos que devem prevalecer sobre as classes. Para, por exemplo, como queria Dewey, “entendermos o mundo à nossa volta”, temos as ciências da natureza (evolução,paleontologia, biologia), temos também a geopolítica e as ciências sociais juntas na mesma estante, o que em uma organização tradicional seria não menos que um absurdo. Mas não são, são um grande passo para a autonomia do leitor das tecnalidades hoje impostas.
Pode-se criar, sem nenhum desdouro para a classe biblioteconômica, uma espécie de “self-service” na Biblioteca, e assim dar a maior autonomia possível ao leitor.

(1) Aby Warburg criou um sistema assim para consulentes de sua biblioteca. Ver Manguel. Biblioteca  à noite . São Paulo: Cia das Letras, 2006

Pierre Bayard Como falar dos livros que não lemos? André Miranda


À primeira vista, o livro "Como falar dos livros que não lemos?" parece um guia de humor. Com esse nome curioso, capítulos intitulados “Não ter vergonha” e “Situações de discurso com o ser amado” e uma tabela de abreviações em que são sugeridas as classificações LD, LF, LO e LE — livros desconhecido, folheado, de que ouvi falar e esquecido —, o ensaio que a Editora Objetiva acaba de lançar no Brasil pode aparentar ser mais uma obra para impressionar os amigos. Mas não é nada disso, garante seu autor, o professor de literatura francês Pierre Bayard. — Há uma compreensão equivocada de que meu objetivo é desestimular as pessoas a lerem. É o contrário. Eu sou um fã dos livros. Mas eu quero que as pessoas tenham uma boa experiência com a leitura. Na escola, a gente aprende a ler somente de uma maneira. Os professores falam dos livros importantes e dizem que você precisa lê-los do início ao fim, da primeira palavra até a última. 
O que eu defendo é a liberdade na leitura — explicou Bayard, por telefone a O GLOBO.(19/01/2008)
Mais do que uma defesa sobre a liberdade, o livro de Bayard é um ensaio extremamente bem fundamentado sobre todo o processo de leitura — ou, como o autor prefere, o processo intermediário que existe entre a leitura e a não-leitura. Parece confuso, mas no texto do professor francês tudo fica extremamente agradável e simples. A partir de obras de outros escritores, ele disseca as situações pelas quais passa um leitor, de diversas origens e formações. Através de um obituário escrito pelo poeta e filósofo francês Paul Valéry na morte de Marcel Proust, por exemplo, Bayard explica que é possível falar sobre a obra de alguém mesmo sem tê-la lido por completo. Em outro momento, ele trata do enredo de "O nome da rosa”, de Umberto Eco, no qual o monge Guilherme de Baskerville investiga assassinatos cometidos num monastério. As mortes envolvem um dos volumes da “Poética”, de Aristóteles, obra no qual ele faz uma análise do riso. O detalhe que interessa a Bayard é que Baskerville deduz os crimes sem nunca ter lido a obra de Aristóteles. — Mesmo alguns livros que não lemos fazem parte de nossas vidas. São os livros sobre os quais nós ouvimos falar. Eu não devo ser capaz de dizer exatamente o que eu li sobre Hegel, Kant, Freud ou Proust. É claro que eu li muita coisas desses autores, mas é que eu também li muitos livros que falam sobre esses autores. É difícil diferenciar uma coisa da outra. É estreito o limite entre ler e não ler. Quantas pessoas podem dizer que leram da primeira linha até a última linha, da capa até a contracapa, a “Bíblia”? — questiona Bayard.
Já no capítulo “Situações de discurso diante de um professor”, o professor francês analisa o estudo da antropóloga americana Laura Bohannan com os tiv, um grupo étnico da África Ocidental. Nele, Laura relata a experiência que teve ao, oralmente, contar a alguns deles a história de “Hamlet”, de Shakespeare. O resultado foi que os tiv questionaram várias passagens do livro, por não entenderem, por exemplo, o significado de um fantasma ou não acharem estranho que a viúva Gertrudes se casasse pouquíssimo tempo depois da morte do marido.
Desconhecidos, folheados ou esquecidos... 

Bayard desenvolve, então, um conceito que ele chama de “livro interior”, uma espécie de filtro que varia de cultura para cultura e que determinaria a recepção de novos textos por parte do leitor. — Eu acho que alguns livros importantes não o são para mim ou para você. Isso não significa que é para se sentir culpado caso você não se saia bem lendo alguma coisa. Eu digo para os meus estudantes que eu não fui bem sucedido em ler “Ulisses”, do Joyce. Talvez não fosse o livro para mim. E não me sinto culpado em não ter lido “Ulisses” e explicar do que ele se trata — diz.
Sobre os livros lidos e esquecidos, Bayard cita o ensaísta francês do século XVI Michel de Montaigne. Em seus “Ensaios”, Montaigne diz que, depois de ler um livro, detalhes “pequenos” como o autor e as palavras eram esquecidos prontamente. Até mesmo seus próprios escritos se perderiam na memória com o passar dos anos.
Bayard afirma que Montaigne teria conseguido apagar qualquer limite entre leitura e não-leitura. O autor diz que a “confissão” do ensaísta nada mais é do que um resumo da relação que todas as pessoas têm com os livros. “Não guardamos em nossa memórias livros homogêneos, mas fragmentos arrancados de leituras parciais”, escreve ele. — Existe uma situação intermediária entre apenas ler ou não-ler um livro. Os intelectuais conhecem bem essa situação porque estão acostumados a folhear os livros, a começar uma leitura e não terminá-la. Mas muitas pessoas não entendem isso — afirma Bayard. — Quando alguém vai ao meu apartamento, vê aquela quantidade imensa de livros e pergunta se eu li todos, eu francamente digo que não. A questão é que eu vivo com os meus livros, eles são minhas companhias, meus amigos. Quando eu tenho problemas, eu peço a eles a solução, mas não leio todos.
Dessa biblioteca, o professor francês tem dois volumes que podem resumir bem o espírito de liberdade pregado em "Como falar dos livros que não lemos?"(208 páginas). Um é a resposta dele à pergunta “qual o melhor livro que você não leu?”. Já o outro é uma confissão sobre um autor brasileiro.
— “Ulisses” é o livro que não li e mais gostei. Eu tenho certeza que é um ótimo livro. Há muitas garotas que são interessantes, mas que podem não ser para mim e podem ser para você. A lógica é a mesma — brinca o simpático Bayard. — Dos autores brasileiros, eu adoro Machado de Assis. O “Dom Casmurro” eu realmente li. E até o reli. Reler é também uma ótima forma de ler um livro. É importante ser um leitor criativo.
 Entrevista e comentários de André Miranda

Duas mães reclamando

Ao circular numa livraria que freqüento, ouvi o curto diálogo:

-          Absurdo, sabe quanto foi só um  livro do meu filho, do ensino médio? Oitenta e nove reais, um livro! – seguido da observação da outra:
-          Só a lista escolar de um filho foi de setecentos reais! 
Apenas essas duas linhas de diálogo  são o bastante para reflexão. A tal ‘volta às aulas” é o carnaval das editoras, a lágrima das mães e a enxaqueca dos livreiros. Fui livreira e nessa época,o Lexotan não bastava para tanto estresse. Sabíamos que havia um desconto do editor para o livreiro, variava de 20 a 30%, desconto que nos permitia  uma “margem” que porém se dissolvia em uma simples equação: o livreiro tinha 40 dias para liquidar a fatura à editora, enquanto tínha que vender ao consumidor em até seis parcelas, ou seja, seis meses. Tudo seria perfeito seria se vendêssemos todo o estoque, mas não. Era uma espécie de loteria. Muitos títulos se esgotavam e o consumidor, que sempre tem razão, não fechava a lista que estivesse incompleta. E tome prejuízo. Mas são águas passadas. Falávamos dos preços. Não é preciso ser grande especialista para entender esses preços ultra-engordados. A razão disso chama-se “compras governamentais”. O governo precisa de grandes descontos para fechar as concorrências de compra dos livros de seus programas de distribuição MEC/MinC. A lógica é essa: se o editor colocar um precinho camarada num livro, digamos, 20 reais no máximo, para o governo, vai vender ao mercado privado pela margenzinha que repassa aos livreiros, mas se ele elevar (não quero usar o termo superfaturar)o preço para o governo, esse preço já vai engordurado para o livreiro e, logo, para consumidor final. Daí o diálogo acima das duas mães. Cantilena de todo ano. Sabe-se, desde criancinha, que tudo, tudo que se vende para o governo ,e não se pode excluir livros, é cobrado por muitas vezes o valor real. E La Nave vá...  Fazer o que, muitos perguntam. Há várias coisas: auditorias para ver fiscalizar esses preços, isso no nível prático. No nível gerencial, é mudança radical na política de livros didáticos. Livros didáticos, pode-se ter, mas baratos, muito baratos, baratos de não se ter pena  de usar, jogar fora e reciclar o papel depois para se produzir novos didáticos. A política de “passe adiante seu livro didático” justifica edições luxuosas  desses livros que, afinal, são manuais de instrução,temporários por natureza, encarecendo-as e bem mais até do que os livros comuns que tem temporalidade maior. Que livro comum custa R$ 89? Não é verdade que passar o livro adiante  garanta durabilidade a esse livro. Guardem o luxo das edições para livros informativos e literários. A ciência muda, a tecnologia muda, o conhecimento evolui, os programas pedagógicos também, e tudo conspira para que o didático usado  se transforme num transtorno para as  famílias, as escolas, as bibliotecas e o meio-ambiente,  a permanecer essa política. 

Essas são as primeiras  reflexões produzidas apenas por duas mães reclamando.  

Biblioteca essa invisível

O trabalho de organização de uma biblioteca é invisível. Desafio a quem me desmentir. Muito administrador e muito do público em geral desconhecem o quanto se despende de trabalho até um livro chegar à estante. No entanto, um bibliotecário diligente precisa ter um pouco de formiga e um pouco de cigarra. Unir esforço e arte. Essa arte se compõe de feeling no que se refere à recepção das obras pelo leitor, que vai às bibliotecas (gerais) movido por suas necessidades e impulsos.  Se há invisibilidade quanto ao esforço, não há quanto à constatação de que toda biblioteca geral, por menor que seja, compreende a memória coletiva, o que em última análise é a "biblioteca coletiva", conceito de Pierre Bayard (1) onde o acervo é formado não dos livros que todos leram, mas dos que todos conhecem. Como os contos de fada, o folclore, as biografias, os clássicos e best-sellers famosos e laureados internacionalmente. No entanto, o que fazer quanto à enorme produção de novos livros que chegam às prateleiras todos os dias, querendo se "eternizar"? O que fazer para incorporá-los a essa memória?. Diz ainda Bayard que esquecemos o que lemos, daí a necessidade de cuidarmos de que a memória esteja disponivel. Sabemos também que, na proporção de dez para um, muitos livros jamais serão lidos e jamais incorporados à biblioteca coletiva. Mas como distinguir? A maneira clássica tem sido a passagem do livro pela crítica e pelas academias, mas nem sempre o que é apreciado na crítica e  academias é apreciado pelo público; então resta ao dedicado bibliotecário observar a "vida" do livro pelo uso na biblioteca. Só aberto em algum momento, e,  mesmo que apenas folheado,uma obra cai no imaginário e pode vir a ser potencialmente um título a se incorporar à biblioteca coletiva. Dessa forma, havemos de concluir que a invisibilidade é apenas um silêncio das inteligências que murmuram e que, expostos à luz do público, se farão ouvir para a posteridade.

(1) Pierre Bayard. Veja Por que falamos dos livros que não lemos?

Desescolarizar a leitura

Desescolarizar a leitura, como assim? – Perguntarão,e com razão,  leitores, professores e  interessados.  Como, se a  relação da escola com a leitura é a mais próxima  e constante entre todos os seus agentes. Isso significa não ler? 
Como ficarão jovens e crianças sem a obrigação de ler? 
Vamos por partes. Ninguém “deixará de ler” , nem os livros serão “varridos” do cotidiano das crianças. Pelo contrário, o que pretendo com a idéia de desescolarizar a leitura é principalmente  introduzi-la no cotidiano, sem o estigma  de que leitura é para o mestre recurso de aprendizado, e para o aluno “coisa de escola”.
Nos anos, e não poucos, em  que tenho convivido com crianças e adolescentes na biblioteca, tenho tentado desvincular o livro, principalmente literário, da noção de dever e tarefa, mas na maioria das vezes  tenho frustradas minhas  intenções em virtude da nova prática e da crença de que a leitura resolve "por ela mesma" as deficiências de vocabulário, da sintaxe e desenvolvimento da expressão. Estou segura de que não resolve, tanto quanto estou segura de que bons alunos têm melhor desempenho em leitura. Contraditório? Parece...
Nesse tempo me foi dada  a oportunidade de  perceber os alunos que têm bom desempenho geral e, ao mesmo tempo, são bons leitores, não foi porque  a obrigatoriedade ou a oferta da leitura foi “eficiente”; foi justamente porque adquiriram autonomia de escolha dos livros, aliada ao fato de   que    o que funcionou para esses alunos, foi  não só a existência e oferta  da literatura, mas por esta se aliar aos mecanismos de aprendizado que nada  têm a ver com o “ter que ler”, mas com o domínio da língua e as linguagens a ela incorporadas.
A leitura como recurso pedagógico se constrói da necessidade de consulta de conteúdos informativos  e do treinamento em análise, síntese, reconhecimento dos discursos, gêneros e suportes de informação, e realmente é necessário que  lhes sejam apresentados e identificados,  dentro de uma programação adequada à escolaridade.
Identificados os formatos e suportes, os jovens não  necessitam necessariamente terem seus conteúdos “sabidos”(decorados) , exceto quanto  ao indefectível currículo obrigatório, que obviamente necessita ser lido, – podem ser apenas  folheados, e consultados os seus enunciados. Com esse domínio, fariam provas sempre com consulta (e seria o fim da "bendita" cola).
A literatura para todas as idades  e faixas  deve se situar entre essa intertextualldade. A intertextualidade aplicada ao aprendizado tem a função de agregar competências. Uma das dificuldades de agregar competência está no fato de que o suporte único que os alunos têm acesso na escola – o livro didático – compromete as de manusear, tocar e identificar não só diferentes suportes de informação: livros, revistas, jornais, como os diferentes gêneros de discurso, uma vez que esse livro pretende  fazer  a mediação entre os leitores e outros tipos de documentos, substituindo-os.  Há profissionais que ressaltam o fato do aluno ter, em toda a sua vida escolar, acesso somente ao livro didático, o que é de se lamentar. Não se entra aqui no mérito da qualidade desses livros, há muitos que são bons; o que se discute é a internalização do conceito de livro como propriedade da vida escolar. Quando ouço as pessoas, tanto profissionais como leigas falarem em “paradidáticos” me pergunto se isso não dissemina um conceito difuso de livro em todas as suas particularidades: livro literário, informativo, científico e técnico, livro prático etc.. Isso equivale a dizer que se induz a pensar “livro” como se fossem de duas categorias: didático e não didático, num reducionismo tipo “existem os livros para ensino e os demais” – paradidáticos ou vulgarmente conhecidos como “extra-classe”. Como se as pessoas não carregassem o livro para suas vidas. Ou como se a única referência à leitura se resumisse à escola. Sabemos que, em diferentes momentos históricos, diferentes instituições se fizeram agentes da leitura: as aristocracias, a igreja e depois a escola.   Mas, desde a descoberta da imprensa, o conhecimento se pulveriza e se dissemina no seio da sociedade, e mais ainda, a partir da Revolução industrial quando um mercado de leitores foi necessário não só para qualificação para o consumo, como para mão de obra para indústria. Sabemos que a qualificação para formação profissional  se deu  em proporção muito superior à para o mercado e, particularmente, o mercado editorial. Ou seja, há mais leitores para uso do livro de instrução do que o consumidor voluntário e autônomo do livro, de qualquer livro. O mercado editorial então juntou seus esforços no processo educativo, e, particularmente no Brasil, o fez de maneira que o livro dito “paradidático” vem carregado de bulas de uso: roteiros de leitura, exercícios, suplementos, enfim uma parafernália no sentido de mediar a falta de hábito desse jovem em manusear, conhecer e reconhecer, e diferenciar formatos e suportes de informação, e dando a conotação de que todo livro serve a fins escolares.
Falávamos de desescolarizar a leitura como uma proposta no sentido de liberar o livro de um estigma. O de que leitura é domínio da área de formação educacional e não recurso para a vida  do indivíduo. O livro na e para a  educação é parte da cultura e não o livro na e  para  a cultura é parte da educação.
Hoje, a agravar esse quadro restritivo da leitura, o livro vem perdendo para outras formas que privilegiam o imagético e a mensagem curta, e ninguém pode apostar mais na expressão na sua forma tradicional, oral e escrita. Apesar de concordar com Humberto Eco que nada supera  a portabilidade do livro, o acesso à informação por mídia digital cada vez mais reduz o campo da mídia em papel, que hoje necessariamente se obriga a uma versão online, como acontece hoje com os principais jornais no mundo. (1)
Dirão alguns: há texto na Internet; sem dúvida, porém, pelas características dessa mídia, algumas mudanças são visíveis quanto ao modo de ler: a verticalidade, que evoca um predomínio da parte pelo todo, uma vez que o livro, ao contrário da leitura na tela, apresenta-se mais como o todo pela parte, através do ato de folhear; outra:  a necessidade de que se escreva de forma sucinta e direta no computador, o que faz com que essa exigência influencie textos em papel; na tendência  da editoração na forma de apresentação gráfica mais leve, corpo de letra maiores, fora o fato notável de que as referências em um determinado texto estão imediatamente  acessíveis, pelo hipertexto, essa sim uma  facilidade  com largas vantagens em relação à tradicional.
Por outro lado, a confiabilidade e autoridade de textos na Internet  deixam a desejar. Com os prós e os contras, essa é uma realidade textual com que nos defrontamos e sobre a qual deve-se estabelecer um debate entre seus diferentes atores.
Pesquisas mais recentes divulgadas mostram que há no Brasil um crescimento do uso do livro, de uma meia de 1, 8 livros/ano para 3,7 livros ano por habitante, mas não se divulga sob que bases  são feitos esses estudos. Se sob influência da escolarização, se sob influência de mercado, com a mídia agregada, se sob influência das políticas públicas que, eventualmente, podem fazer desses resultados uma conclusão ilusória.
Fato é que o que se vê é o seguinte quadro: mal o educando aprende as primeiras letras, forma as primeiras frases, e lê os primeiros livrinhos, defronta-se com facilidades que nunca terá, se apenas contar com o suporte em papel, daí tendendo desde cedo a dispensá-lo, assim que se vir livre da obrigatoriedade de ler e "correr"para o computador.
Não que se possa dispensar   o computador, essa realidade não tem volta, mas o impasse criado faz recrudescer as forças impositivas e, logo, restritivas da leitura, porque são forças que defendem a “facção do livro”- hoje mais as políticas de leitura do que as salas de aula - mas que, ao mesmo tempo, não podem vetar ou obstaculizar as tecnologias da informação, indissociáveis da vida moderna.
Não há repostas prontas, mas há dúvidas cada vez mais numerosas e instigantes a clamar que os envolvidos se debrucem sobre elas e, certamente, o reforço à escolarização da leitura significa um retrocesso ao tempo em que  se lia apenas nas bibliotecas dos mosteiros e nas rodas aristocráticas.

 (1) Ler a esse respeito Beckett.SuperMedia: save the jornalism so it can save the world (William-Bleckwell) e Sant´Anna. O destino do jornal (Record) ambos recém-lançados.


Sem pressa e sempre


Muitos se impressionam com o potencial de oferta de livros, não só no mercado quanto nas bibliotecas e  o reduzido número de consumidores do livro. Pode-se dizer  que um  terço dos leitores use a biblioteca por força de estudos necessários à  qualificação profissional; outros são pesquisadores, e um número bem menor é de curiosos ou leitores, digamos “de fruição” ou bibliófilos.
Os  leitores de fruição que procuram bibliotecas  certamente estão entre aquela camada que não tem meios de adquirir livros, e têm algum tempo para freqüentá-las, o que reduz este universo mais ainda. Dito isto, a possibilidade de uma biblioteca ser um órgão difusor “de massa” é mínima. Daí temos que, no conjunto,  esperar que se vá  contar com um número sempre reduzido de demanda de leitores  em relação à oferta de de obras.
Uma  estratégia que se tem usado é instalarem-se bibliotecas em lugares de alta circulação, como metrô, e nos bairros, uma estratégia salutar, mas que não mexe muito nos índices de  fruição entre o livro e outras mídias, pois pessoas que “poderiam estar lendo” estão no computador, ou celular.  E a tentativa de mudar este quadro é inócua.
Deve-se, por isso, simplesmente  desistir?
Nunca! A biblioteca jamais perderá  o papel  de memória de uma cultura. Mas de que vale esse papel, se  o livro está  apenas disponível, porém intocado?  Considere-se, no entanto que o registro de sua existência possa, a qualquer momento, acionar o seu uso. Assim é imprescindível que os livros estejam fisicamente dispostos em  algum lugar,  para tornar possível o seu acesso e a informação sobre eles em algum meio.  Isso é elementar em biblioteconomia. Hoje há a biblioteca virtual e o acesso via Internet , mas nem tudo está disposto na Internet, há problemas como  portabilidade e inclusão digital.
Deste ponto de vista, contrariando os prognósticos que já se tornam comuns , não será em pouco tempo – podemos arriscar séculos-  que a biblioteconomia desaparecerá.  Certamente, o pressuposto  está certo  quanto à relação cada vez mais diminuta  leitores /obras .
Se a  biblioteconomia não vai desaparecer, no entanto as funções  intrínsecas devem ser alteradas. O bibliotecário já tem, como nas redes, à sua disposição sistemas em que migrem dados,  já nos formatos-padrão, que “hospedem” seus banco de dados . Ele deve apenas adaptar   esses dados à sua realidade local, como notações mais simplificadas e  ordenamentos mais  flexíveis da coleção.
A grande vantagem desses novos desafios é que  o novo  profissional deverá ficar mais livre para repensar as estratégias de ganhar e manter leitores. Desse modo, ele será um "caçador de leitores" e, para isso, deverá reunir qualidades pessoais de encantador, técnicas de marketing, cultura geral  e  de comunicação.
Esse futuro está muito perto mas, ao contrário da velocidade que a época exige, o que é preciso ter em mente é que tudo que cerca o livro é algo para se ter sem pressa e sempre !

Psicologia do pequeno leitor

Fala-se  muito  em “psicologia do leitor”, mas não há estudo sistematizado que a  “embase” com um corpo teórico, então especulemos.  A observação do comportamento do leitor deve ser feita ainda desde quando pequeno,  e alguns fundamentos já podem  ser  esboçados. Naturalmente que os  editores acertam muito quanto a determinadas preferências em certas faixas etárias , mas às vezes erram, e muito feio, por não ter convívio com  leitor no acesso ao livro. Quem convive com ele poderia muito bem se lançar como editor de infanto-juvenil com alguma segurança, além do que é algo, se sabe, bem rendoso, principalmente porque conta quase sempre com substanciosa ajuda do governo.
Ironias à parte, o que se deve levar em consideração é que até os quatro, cinco  anos, o livro é na verdade um objeto  de manipulação e de apelo visual preponderantes.  Às vezes, para alguns pequenos, os livros têm asas, servem para isolar em cima do primeiro desafeto, ou jogá-los ao chão. Para os muito  pequenos é iguaria; os levam à boca. Os editores criam livros de capa resistente, com elementos de brinquedo, coloridos, com objetos e materiais  macios, “bons de apertar”, e alguns sonoros.  É claro que  as crianças gostam, mas tal coisa não só  não são livros, como tampouco farão deles “futuros leitores”, como no discurso oficial corrente. 
Sou dos que acreditam que o conceito do livro se forma quando, pela primeira vez,  o pequenino, com os olhinhos brilhando,  vê um adulto falando  e, de vez em quando,  olhando para o objeto e alternadamente para ele, como se aquele livro conduzisse  sua fala e suas emoções, a cada passagem triste, ou engraçada. Aí sim é onde se abre o mistério e encantamento , de onde saem, como mágica, as emoções, como uma caixa de Pandora.
Mais tarde, mas não muito,  começam-se a se formar os heróis e os mitos das centenas de histórias que atravessaram séculos  e continuam a encantar em mil versões: os contos de fadas. Mais adiante, ainda as histórias de ação, que hoje, torçam ou não os narizes os críticos, são magistalmente conduzidas pelos  estúdios de cinema. Bem, alguns escritores nem enxergam isso. Escrevem histórias com diálogos longos e enfadonhos ou histórias , que sob influência das novelas, tem “barrigas”. Chatíssimos! Não são as novelas, mas o cinema que atrai os pequenos para narrativas céleres e cheias de reviravoltas. Quem sacou muito bem isso  foi J.K.Rowlings com seus alentados e empolgantes Harry Potter, que os escreveu pensando no cinema. A conferir.
J K Rowling  aproveitou muito bem os sinais dos tempos: frenéticos, urgentes e mutantes. Não foi só por intermédio da mídia que ela se tornou uma autora best-seller. Seus livros têm celeridade, tem surpresas e muito colorido, seguindo a tendência do cinema, que aproveitou seus textos sem muito esforço, já que a série do Harry Potter é ela mesma cinematográfica. É claro que o perigo mora aí: ao se habituarem ao ritmo da história, os menores leitores não conseguirem usufruir de uma escrita reflexiva, mais elaborada, mais intimista, ficando reféns do ritmo da narrativa. Mas não vamos desanimar. Vamos pensar que esse seja um abrir caminhos , que desses grossos volumes possam sair leitores mais aplicados e prontos para diversificar sua cesta de leitura.

Um outro e concomitante traço de época é o comprimento da onda midiática. Os menores, de sete a oito anos, mesmo sem habilitação suficiente para saborearem Harry Potter, solicitam o empréstimo do livro que usam apenas como troféu, fetiche tipo "eu também leio Harry Potter," sem, no entanto, terem-no feito. Isso já é um componente similar à cultura livresca que fez com que muitos adultos carregassem  ou James Joyce, ou Thomas Mann (1), tantos outros, debaixo do sovaco, para exibirem um status de culto ou "antenado" com seu tempo. Jean-Pierre Bayard em Como falar dos livros que não lemos diz que não leu, mas conhece Joyce de resenhas e de comentários .  E assim se reproduz o fato de que os pequeninos também não querem ficar "por fora da onda", espécie de " terceira onda" (2) de propagação de uma obra. O que fazemos com isso? Em princípio, nada. Fingimos que não sabemos que o menino não leu, porque em poucos dias o livro é devolvido, sem  se lembrarem de desmarcar as primeiras páginas percorridas, o que é um avanço, ao menos a tentativa foi feita. Depois disto, alguns voltam a seus pequenos volumes ilustrados e de pouco texto. Outros, em menor número, dão saltos qualitativos, pulam para o juvenil  e até  querem literatura adulta. Outro dia me surpreendi  com uma aluna do Ensino Médio  solicitando O crime do Padre Amaro do Eça de Queiroz, mas por alívio constatei que foi a pedido do professor, embora a inquietação de ver uma jovem aos 16 anos encarando tal leitura fosse grande, não pelo tema em si - o romance de um padre com uma mulher - mas por tratar-se de um escritor que deveria ser recomendado para quem  já entrou na rota do desencanto,dos 40 em diante.

Enfim, o que esse professor saberia dessa aluna, das qualidades e necessidades da  "psicologia de leitor"? Que estão mais objetivos?Mais céticos?Mais realistas?Menos pacientes?Menos ou mais influenciáveis?

Evidente que a psicologia do leitor reflete o comportamento de época. E há muito ainda a  se explorar nessa área.

NOTAS
(1)  Ulysses  e A montanha mágica  respectivamente
(2) Título de livro e expressão cunhados por Alvin Toffler a  respeito da sociedade da informação

Psicologia do mistificador na Rede

Com o advento da Internet temos algo realmente estarrecedor: a disseminação da mediocridade na sua expressão mais completa. Desculpem-me as exceções.
Fosse só a mediocridade, não seria tão mau assim, afinal seres comuns tem lá seus direitos de expressão.
O problema é essa mediocridade vir com a falsa assinatura de talentos consagrados nas áreas de comunicação e literatura.
O campeão entre as vítimas dessa impostura é Luís Fernado Veríssimo. Faço a minha parte, quando vejo que o texto é falsamente atribuído a ele, alerto imediatamente aos que me mandaram. Nunca repasso. 
No entanto, a proporção dessa propagação é igualável a um tsunami. Textos piegas, pueris, e beirando o ridículo são atribuídos a Veríssimo.Raras vezes me engano, mas uma ou outra crônica meio que imita o estilo do escritor gaúcho, e então procuro socorro em fontes que possam autenticar esses textos, mas não encontro, o que me resta é uma sensação de indignação e impotência.
Ocorre-me agora que poderia existir uma espécie de central de autenticação  para autores na Internet, como existe a Biblioteca Nacional no que se refere a registro de livros. O autor (verdadeiro) registraria nesse site, mediante um protocolo secreto, ou senha,  sua crônica ou artigo, então o que não tivesse esse registro do autor seria falso.
 Costumo consultar a autenticidade nos lugares onde o autor publica, como jornais, por exemplo, mas nem sempre acho resposta satisfatória. É necessário um sistema de segurança, não só para falsos textos atribuídos ao autor, como textos autênticos "tungados". A segunda opção é mais rara, porque é controlável pelo autor - mas controlar o que ele não escreveu  é quase impossível.
Há que se criar uma consciência com respeito a esse comportamento. Mas primeiro é necessário que se entenda esse mistificador da rede. Ele se sente "prestigiado" porque os leitores acreditam que um texto seu é do Veríssimo ou outro grande autor. E assim vai alimentando uma espécie de vaidade anônima, que é falsa, porque sabe que o que escreve é medíocre, e por isso, não se identifica. Ou, ao contrário, cai em auto-engano, sentindo-se à altura do que ele supõe ser o seu alter-ego literário
Aí está um grande desafio aos desenvolvedores de sistemas, aos tecnólogos da  informação e a todos os bem intencionados.
Quando por enquanto nada se pode fazer, sugiro o seguinte: que não se repassem textos que não venham com a fonte, isto é, a identificação de onde foi publicado. É um começo.

SOS Machado de Assis

Por ocasião do Centenário  da morte de Machado de Assis , as escolas  ficam em polvorosa e tome Machado de Assis para aluninhos desde os dez anos de idade!
Ok, eles pegam poemas, crônicas, contos e os maravilhosos romances “engolem” de qualquer jeito  sem digerir – a l i e n a d a m e n te  - porque ainda não têm maturidade para saborearem a iguaria mais fina da literatura brasileira, que é o Machado.
Isso é um atentado contra o bom gosto, contra a estética, contra tudo que representa de bom e de mais universal em nossa literatura, e convenhamos, contra a leitura, que passa pelos pequenos com sabor de jiló ou óleo de rícino para cabecinhas ainda tão imaturas.
Resultado: irão odiar Machado de Assis desde criancinhas , e com toda razão, e esse ódio tem consequências:  mais tarde, a não ser para os raros  que trilharem o caminho das letras, jamais retomarão o nosso magnífico autor.
A mentalidade positivista reza que as crianças devem participar da passagem do evento, até aí nada demais, porém fazê-los ler a obra de Machado  vai uma distância estratosférica!
Quem tem que ler Machado é  o professor. Colher passagens deliciosas que são muitas, passá-las aos pequenos, aí sim, é "dever até com a pátria" , mas mandá-los, como um rebanho, procurar por “um tal de Machado de Assis” que “a professora mandou ler”, prefiro deixar  à apreciação das autoridades  e lançar um SOS!
Às autoridades em educação e cultura,
 À academia de Letras,
Às universidades!
Os índices de lanterninha do Brasil na Educação se devem em muito a essas práticas. De professores que não estudam, de professores que não lêem, de professores que não buscam melhores maneiras de levar a excelência  a seus educandos.
Como diz Edgar Morin, as crianças não precisam de “cabeças cheias”, mas de “cabeças bem-feitas”.
E não será por esses meios que se conseguirá. Quem ama Machado de Assis sabe.
Transcrevo o artigo de Por Lud Inácio em 1/7/2008 * com quem concordo inteiramente:
Machado de Assis é uma porcaria
A acusação de que os jovens brasileiros têm preguiça de ler é injusta e infundada. O fenômeno Harry Potter testemunha a favor. O Brasil assistiu boquiaberto a miúdas crianças devorarem avidamente infinitas páginas de um pesado volume cujas mãozinhas mal conseguiam sustentar. Da mesma forma, é mentira que criança não gosta de tomar remédio. Ao contrário, é preciso vigiar o frasco de xarope, pois o líquido colorido, cheiroso e docinho lhes aguça a atenção. O segredo do best seller infantil foi justamente este: transformar um amaríssimo remédio em deliciosa guloseima.
Na verdade, os pequenos não-leitores são vítimas de ignorantes imposições que fazem dessa atividade não uma prazerosa fonte de crescimento e informação, mas um enfadonho e torturante castigo. Um mau exemplo disso é a teimosia de desastrados professores, que insistem em empurrar Machado de Assis goela abaixo de uma criança de 4ª série. O resultado é que ela toma ódio desse e de outros gênios – aliás, de qualquer literatura.
E deve-se, no caso, dar razão ao educando, pois Machado é insuportavelmente inadequado para a idade. Seu vocabulário e suas construções frasais são vetérrimos, herméticos e sua filosofia inalcançável para tão incipiente formação. Os incautos mestres querem que a criança tome a bicicleta pela primeira vez e já saia pedalando com destreza. É preciso que se coloquem aquelas rodinhas laterais até que o novo ciclista aprenda a se equilibrar. Assim, um dos melhores livros de toda a literatura brasileira é o Escaravelho do Diabo, se lido aos 10 anos de idade. (...)
Em descompasso com o aluno, a escola teima no ensino cronológico das correntes literárias e respectivas obras. Mais proveitoso seria começar pela literatura contemporânea, até que um dia ele se interessasse por texto cheirando a mofo – cantigas de amigo e maldizer.
Mas há coisa pior: despreparados professores usam a leitura como instrumento de coação. Alguns, para recobrarem a disciplina e a ordem da sala, ameaçam seus alunos com atividades de leitura. O resultado é previsível.
Em suma, a criança e o adolescente não lêem porque a escrita é intragável. A começar pelo vocabulário, embaraçoso, incompatível com sua deficitária formação escolar.(...)
Os pais dão sua contribuição: são o melhor exemplo do que não se deve fazer. Prostram-se mudamente diante da TV e dali só saem para dormir. Desconhecem que um dos melhores métodos de ensino e aprendizagem chama-se imitação. As crianças copiam o que vêem, ou melhor, o que não vêem. Se não flagram seus pais degustando um bom livro, não repetirão a experiência.(...)
Habituados a elogios de colegas e de respeitadíssimos intelectuais, os jornalistas ou mesmo escritores não têm consciência de que suas obras de arte são modorrentas leréias. O leitor é excluído porque não dispõe de instrumento para decifrar tão enigmática composição. É como se ela estivesse redigida em japonês arcaico de trás para frente.(...)
É preciso recorrer a profissionais de outras áreas: pedagogos, psicólogos, educadores, bem como a jovens talentos jornalísticos inatos. Só assim será possível a resposta:
– Aí! De-mo-rô, meu.

Observatório da Imprensa www.observatoriodadimprensa.com.br

Eu no sebo, enfim! Latuf Isaias Mucci

Fui sempre um rato de sebos, procurando-os, obsessivamente, em todas as cidades deste Brasil imenso, tornado uma biblioteca tropical. Jamais me esquecerei de ter encontrado, há mais de uma década, o Prof. Antônio Carlos Secchin ( hoje imortal da Academia Brasileira de Letras e autor do primeiro, creio eu, livro-roteiro dos sebos  cariocas) lá pelas bandas da Praça Tiradentes, no Rio de Janeiro, que é uma região, famosa também por abrigar inúmeros sebos. Noto que, fora do Brasil, não há essa cultura dos sebos: na França, por exemplo, há os bouquinistes, à beira do rio Sena, em frente à igreja de Notre Dame; mas lá, na terra de Voltaire, são antiquários de livros, o mesmo ocorrendo na Argentina, onde se trata de livros raros, caríssimos, por sinal. Uma coisa que me atrai, muitíssimo, nos sebos, para além de seu clima e aura de busca, de curiosidade, de voyeurismo erudito, é, precisamente, o fato de poder se encontrarem obras raras, esgotadas, de tiragem pequena. Aliás, já existem sebos virtuais e os há até com o nome de “livros difíceis”, difíceis de serem encontrados, claro!
            Na minha prática de sebo, tenho colecionado algumas histórias, como comprar livros com famosos autógrafos;  uma  me ocupa, atualmente, a memória, a imaginação e um especial afeto: havia aqui, em Saquarema, o único sebo da Região dos Lagos, propriedade do jornalista João, ao qual  eu adorava ir o mais freqüentemente possível; até estacionava meu carro em frente ao sebo para tê-lo como referência obrigatória de minhas andanças. Certo dia, naquele sebo discreto (infelizmente fechou as portas e me deixou, na boca, um gosto amargo de amigo morto; foi substituído por uma clínica geriátrica...), encontrei o livro Carnavais de guerra, de minha amicíssima Dulce Tupy, a quem telefonei incontinenti, dando-lhe a notícia do achado do precioso livro (único no gênero), dizendo-lhe que o havia comprado para presentear a alguém e lendo-lhe a dedicatória; ironicamente, como sempre, ela comentou que o político local a quem presenteara era um analfabeto, como tantos de sua laia.
            Semana passada, Rodrigo Araújo, meu eterno orientando, avisou-me que havia um livro meu, com dedicatória e tudo, no sebo “Soletrando”, em Niterói. Corri para comprovar o fato: adentrei a imensa livraria, gritando ao gerente Wando: “Quero o meu livro. Agora sou mais célebre do que se estivesse na Academia Brasileira de Letras, porque tenho um livro que pode ser comprado por qualquer um que, depois de ter circulado, veio parar nesta vala comum!” Tive imensa curiosidade em saber quem havia depositado, naquela espécie de biblioteca de Alexandria, o meu Ruína & simulacro decadentista, editado, em 1994, pela Tempo Brasileiro, do Rio de Janeiro. O Rodrigo comentara que o leitor abnegado poderia ter morrido e sua família tivesse querido desfazer-se do pertence. Li a dedicatória: “Ao China – irmão querido nas artes -, com abraço cósmico. Saqüá, Primavera, 1994”. Imediatamente, veio-me à mente  aquele leitor que me recusara: um belo jovem, professor de capoeira, na FAFIMA, faculdade de Macaé,-RJ. Saí do sebo, abraçando meu livrinho, um filho pródigo que, num lance de capoeira, voltava serelepe às minhas vetustas mãos para poder ir parar em outras mãos, jovens ou velhas, e, quiçá, em outro sebo. Oxalá!

L.I.V.R.O de Millor Fernandes

Existe entre nós, muito utilizado, mas que vem perdendo prestígio por falta de propaganda dirigida, e comentários cultos, embora seja superior a qualquer outro meio de divulgação, educação e divertimento, um revolucionário conceito de tecnologia de informação.
Chama-se de Local de Informações Variadas, Reutilizáveis e Ordenadas – L.I.V.R.O.
L.I.V.R.O. que, em sua forma atual, vem sendo utilizado há mais de quinhentos anos, representa um avanço fantástico na tecnologia. Não tem fios, circuitos elétricos, nem pilhas. Não necessita ser conectado a nada, ligado a coisa alguma. É tão fácil de usar que qualquer criança pode operá-lo. Basta abri-lo!
Cada L.I.V.R.O. é formado por uma seqüência de folhas numeradas, feitas de papel (atualmente reciclável), que podem armazenar milhares, e até milhões, de informações. As páginas são unidas por um sistema chamado lombada, que as mantém permanentemente em seqüência correta. Com recurso do TPO – Tecnologia do Papel Opaco – os fabricantes de L.I.V.R.O.S podem usar as duas faces (páginas) da folha de papel. Isso possibilita duplicar a quantidade de dados inseridos e reduzir os custos à metade!
Especialistas dividem-se quanto aos projetos de expansão da inserção de dados em cada unidade. É que, para fazer L.I.V.R.O.S com mais informações, basta usar mais folhas. Isso porém os torna mais grossos e mais difíceis de ser transportados, atraindo críticas dos adeptos da portabilidade do sistema, visivelmente influenciados pela nanoestupidez.
Cada página do L.I.V.R.O. deve ser escaneada opticamente, e as informações transferidas diretamente para a CPU do usuário, no próprio cérebro, sem qualquer formatação especial. Lembramos apenas que, quanto maior e mais complexa a informação a ser absorvida, maior deverá ser a capacidade de processamento do usuário.
Vantagem imbatível do aparelho é que, quando em uso, um simples movimento de dedo permite acesso instantâneo à próxima página. E a leitura do L.I.V.R.O. pode ser retomada a qualquer momento, bastando abri-lo. Nunca apresenta " ERRO FATAL DE SENHA", nem precisa ser reinicializado. Só fica estragado ou até mesmo inutilizável quando atingido por líquido. Caso caia no mar, por exemplo. Acontecimento raríssimo, que só acontece em caso de naufrágio.
O comando adicional moderno chamado ÍNDICE REMISSIVO, muito ajudado em sua confecção pelos computadores (L.I.V.R.O. se utiliza de toda tecnologia adicional), permite acessar qualquer página instantaneamente e avançar ou retroceder na busca com muita facilidade. A maioria dos modelos à venda já vem com esse FOFO (softer) instalado.
Um acessório opcional, o marcador de páginas, permite também que você acesse o L.I.V.R.O. exatamente no local em que o deixou na última utilização, mesmo que ele esteja fechado. A compatibilidade dos marcadores de página é total, permitindo que funcionem em qualquer modelo ou tipo de L.I.V.R.O. sem necessidade de configuração. Todo L.I.V.R.O. suporta o uso simultâneo de vários marcadores de página, caso o usuário deseje manter selecionados múltiplos trechos ao mesmo tempo. A capacidade máxima para uso de marcadores coincide com a metade do número de páginas do L.I.V.R.O.
Pode-se ainda personalizar o conteúdo do L.I.V.R.O., por meio de anotações em suas margens. Para isso, deve-se utilizar um periférico de Linguagem Apagável Portátil de Intercomunicação Simplificada – L.A.P.I.S.
Elegante, durável e barato, L.I.V.R.O. vem sendo apontado como o instrumento de entretenimento e cultura do futuro, como já foi de todo o passado ocidental. São milhões de títulos e formas que anualmente programadores (editores) põem à disposição do público utilizando essa plataforma.
E, uma característica de suprema importância: L.I.V.R.O. não enguiça!

Capitu: as lentes de Luis Fernando Carvalho: releitura

Não poderia passar sem registro aqui a minissérie "Capitu" que Luís Fernando Carvalho (LFC) dirigiu para a tv Globo em dezembro de 2009.
Se aqui falamos em "releituras", várias delas são permitidas pela variedade de recursos cênicos e referências numa cesta riquíssima que o diretor nos proporcionou.
Assim como nas outras séries, a tentação do fácil não o fisgou, ao contrário, cada vez mais contempla e  surpreende seu público com mais audácia , desta vez confrontando as imagens beirando ao burlesco com a escrita afiada da narrativa machadiana, na voz de um Bentinho patético, desglamurizado e encurvado pelo peso das  dúvidas que, como um verdadeiro "capitão Tornado"  - ou Tormenta - que, à la Ettore Scola, enfrenta suas tempestades interiores, desde as primeiras brumas.
Ao contrário do que se poderia esperar , os "pincéis" de LFC com sua gama de cores, luzes, matizes, figuras bizarras, de uma estética felliniana, sua liberdade irrestrita nos adereços, desde um impactante Otelo de Orson Welles, uma  música contemporânea,  a um inusitado celular em cena, por mais alegóricos fossem os elementos de apoio à narrativa, nada roubou a magia do poderoso texto.
O  que mais ressaltou, nesse encontro visual entre Dom Casmurro "das letras", o nosso tão badalado Dom Casmurro, tão banalizado pela escola, e a telinha com  "cheiro" de cinema italiano (expressionista) dos bons, foi a incorruptível e, por isso, incomparável  prosa do nosso mestre, que saltou da moldura fina que Luís Fernando Carvalho lhe emprestou em toda sua forma, muito embora fossem trechos. Um trecho de Machado valeriam quantas obras?
Seria talvez  audácia demais  também dizer que, guardadas as devidas comparações, vista a obra e vista esta moldura, Capitu não seria a nossa Madonna (do DaVinci), esta com poder nos olhos, e aquela no sorriso?
 É ou não é uma releitura possível?

Os capas-duras

Nós, profissionais do livro, pensamos no nosso produto não só em termos de suporte físico como   em seus conteúdos e seu alcance. 
Das  décadas de meados ao fim do século 19, e até bem pouco tempo, anos 60-70 do século 20, produziam-se  obras “de coleção”, cujo padrão era capa dura e pesada.  Mas vejam como isso dizia respeito ao seu próprio tempo e costumes . No primeiro período, as pessoas mais ricas e cultas ficavam  recolhidas em sua casa, após o jantar, mal o sol se punha, dirigiam-se  aos seus “aposentos” para ler ou à sua biblioteca particular . Ou ficavam na sala ou “salão” de leitura, onde eram comuns os  saraus literários. Nos “aposentos”  ou  quartos invariavelmente, existia uma grande escrivaninha de madeira de lei, uma luminária com luz direta, uma poltrona  para ler. E material de  escritório, pena, tinta, tinteiro e mata-borrão.   
Muito da literatura e artes plásticas desse período retrata esses ambientes. O livro, o capa-dura, era pensado para se perenizar através de gerações e gerações, atravessar reformas ortográficas  até acabar, como  praticamente acabou. Os capas-duras quase sempre levavam caracteres dourados nas lombadas e serviam para enfeitar em belíssimas estantes, como um  objeto de contemplação como outro qualquer. O quanto dessas obras não eram mais fetiches  do que de fruição? Tanto que se falava em compras de “livro  a metro”, onde o colecionador as comprava, não as lia, mas as exibia, porque era de “bom tom” entre as classes médias e altas. Hoje essas obras pesadas- algumas tinham até reforço metálico nas capas - são nômades à procura de pouso, por justas razões de época. Os espaços diminuiram; as pessoas se deslocam o dia todo e lêem menos e em trânsito; não há lugares específicos para leitura que converge cada vez mais para as escolas. Hoje as coleções saem em brochura – leves para se ler- e não para serem apreciadas, embora persistam muitos bibliófilos não leitores.
Ainda sobrevive uma cultura de “durabiidade” e preservação, em algumas instituições há a tradição do tombamento, não que este  seja reprovável, mas deve ser criterioso, já que nem toda obra necessita ser encadernada “para o futuro”. A maior parte das publicações, com exceção das de domínio universal, fica datada  e deve-se deixar o tempo cuidar dela e se extinguir naturalmente, como o fim de um ciclo de vida. Se voltar, reedite-se. O grande desafio atual para as editoras é manter intactas matrizes ou registros, em arquivos tipográficos ou eletrônicos, daquelas obras de repercussão no passado e que, a qualquer momento, podem voltar ao mercado.
Os capas-duras  remanescentes devem passar por séria avaliação e que se encontrem formas de, a bem do interesse  público, proporcionar-lhes a  leveza, não só no estilo como no suporte, como queria Calvino em Seis Propostas para o Terceiro Milênio.
Ou senão, como na frase de  Machado de Assis, em D. Casmurro, que” a terra lhes seja leve”.

Livros órfãos: política de Estado

Todas as bibliotecas fazem  periodicamente remanejamento, desbaste e descarte em suas coleções  e  todas têm problema de se desfazer desse material, que não pode se misturar ao lixo comum. Porém, as bibliotecas se arrumam como podem, empurrando obras em péssimo estado para bibliotecas “mais carentes”, para não ter que jogar fora.
Os catadores de papel profissionais  torcem o nariz às coleções de capa dura, e às velhas enciclopédias gigantescas que ocupavam várias prateleiras, e que hoje são, sim, admitamos, um transtorno para bibliotecas - aquilo foi um dia orgulho dos colecionadores. Ninguém que tenha apuro cultural deixaria  de admirar a beleza e riqueza de informações  de uma Delta La Rousse, uma Mirador e uma Britânica. Os  sebos tampouco as querem por perto, porque não há mais demanda satisfatória para elas. Nem casas que tenham espaço para abrigá-las. Estão em CD-ROM ou nos seus sites. As impressas jazem, estragando em depósitos ad eternum.
Certamente há algum lugar para obras rejeitadas nos municípios e em outros estados, mas não se tem esta informação em mãos de imediato. Podemos dizer que  livros cujo destino são sebos, doação e reciclagem  estão órfãos? Receio que sim.
Sabe-se que se produzem mais livros no mundo do que se consome. Podemos avançar na hipótese de que este é um  terreno de política cultural para o qual mais se faz vista grossa.  E aliás, em se  tratando de “grosso”, o grosso desse contingente são, para variar, os livros didáticos. E isso é competência do governo federal, que vive alardeando os milhões de exemplares comprados para distribuição. E dos quais muitíssimos, em não muito tempo, vão parar... no lixo!  Felizmente aqueles livros para uso definitivo ficam mesmo nas casas das pessoas, ou  circulam em diferentes lugares, desde as bibliotecas aos sebos e camelôs.
Fazer  vista grossa a essa situação significa fazer vista grossa à questão ambiental. Ou seja, qual o limite da produção de massa de papel, no atual cenário de cuidados com o meio ambiente? Daí a importância de uma política seletiva  tanto na área de produção, como as tiragens, quanto na de guarda e reciclagem do  material rejeitado, que deve beirar à  ordem de milhões de toneladas, se tivermos como se fazer levantamento em todos os estados.  Sem falar do que isso pode representar em economia.
Mas quem está se dedicando seriamente a isso? Ninguém, porque “livro não se joga livro no lixo”. É o livro no domínio do sagrado. Grande parte das pessoas, em nome desse axioma, “doa”, quando na verdade estão se desfazendo de  livros, em geral imprestáveis - ninguém vai usar, como anuários, guias, catálogos em geral, publicações de uso temporário - por  medo  de descartar, pela falta de orientação de como e para quem entregar. É um “escândalo” noticiado nos jornais, caso de polícia, para o senso comum, achar livro no lixo, mas não há uma política para o livro rejeitado, como  há para o papel.
Qualquer bibliotecário sabe quais publicações não vão mais ter uso em sua biblioteca, mas não sabe, eterna dúvida, que destino lhes dar, já que a biblioteca precisa dar lugar aos novos títulos e às novas edições, em sua estante. E também sabem que tampouco elas vão ter uso em outras.
Uma ideia seria criar em cada município, ou nas capitais, órgãos e centros receptores e de triagem com as doações (até com veículos para receber em domicílio) com gente qualificada (importante) para classificar (por tipo e assunto), selecionar e cadastrar instituições e escolas que teriam interesse em receber este material, depois de avaliação criteriosa.
A idéia é simples e, creio, pouco onerosa.   Quantos galpões e prédios do governo existem por aí sem utilização, que podem ser aproveitados em prol do livro?
É um primeiro passo para se acabar com a orfandade do livro.

quarta-feira, 28 de março de 2012

Ecologia e os livros consumíveis

Na esteira do debate ecológico, vai se deixando para trás a representação do que sejam as toneladas de material didático inaproveitável no presente e no futuro. Como já tive oportunidade de dizer, aqui mesmo neste blog, a feição de tabu que se dá ao livro enquanto artefato sagrado vai permitindo que uma política complacente esvazie essas preocupações, tanto de ordem econômica quanto ambiental. Chegam as aulas e com elas o "natal" farto das editoras de livros didáticos. E o que uma política responsável deveria exigir? Papel reciclado para livros consumíveis. Os consumíveis são aqueles em que a criança escreve e faz exercícios, não se aproveitam para passar adiante, como pretende a propaganda oficial. As editoras produzem edições caras desses livros que poderiam ser simples como blocos e cadernos e bem baratos.
Em meu tempo de estudante, há algumas décadas, era costume se aproveitarem mais os cadernos, o que era um ganho na escrita, pois  o exercício, ou era ditado ou copiado do quadro, o que fazia com que nos concentrássemos mais ao transcrever as questões.  É uma perda de tempo? Perdia-se tempo escrevendo! E ainda havia outros ganhos. Havia ainda um tempo para se tirar dúvidas na hora de copiarmos.
Hoje o professor apenas assinala as páginas do livro, que o menino leva para casa, sem tirar as possíveis dúvidas. E muitas vezes volta com o exercício ou em branco ou incompleto. Aquele antigo procedimento dava a oportunidade do professor retomar o exercício com todos da classe, sem que apenas corrigisse automaticamente os exercícios com as respostas do "livro do professor", como faz hoje; enfim havia, creio, um envolvimento maior entre as partes naquela correção. Não que um professor que use o didático não faça isto, mas por falta de tempo, muitas vezes, e pela "facilidade" do didático, às vezes é obrigado a abrir mão da prática da correção em conjunto, perdendo a oportunidade das discussões e esclarecimentos que surgem naturalmente, além de ouvir mais os alunos.
Não sou professora, mas se fosse, a minha angústia maior seria saber se eles estariam realmente entendendo determinado conteúdo. Sem isso, eu jamais avançaria na matéria  para "dar conta do programa".
Pedagogices à parte, falava da questão ecológica. Com a reforma ortográfica ou outras quaisquer reformas, montanhas de livros serão desperdiçados. Alguma autoridade se dá conta disso? Por que não se fazer a coleta e reprocessar  tantos e tantos livros para reaproveitamento? Enfim, as políticas públicas, tanto na área da educação quanto da ecologia não podem estar separadas.
Já falei neste assunto em dois posts, a conferir: "Livros órfãos - política de Estado" e "Os capas-duras", mas a preocupação continua.