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quinta-feira, 29 de março de 2012

Livros órfãos: política de Estado

Todas as bibliotecas fazem  periodicamente remanejamento, desbaste e descarte em suas coleções  e  todas têm problema de se desfazer desse material, que não pode se misturar ao lixo comum. Porém, as bibliotecas se arrumam como podem, empurrando obras em péssimo estado para bibliotecas “mais carentes”, para não ter que jogar fora.
Os catadores de papel profissionais  torcem o nariz às coleções de capa dura, e às velhas enciclopédias gigantescas que ocupavam várias prateleiras, e que hoje são, sim, admitamos, um transtorno para bibliotecas - aquilo foi um dia orgulho dos colecionadores. Ninguém que tenha apuro cultural deixaria  de admirar a beleza e riqueza de informações  de uma Delta La Rousse, uma Mirador e uma Britânica. Os  sebos tampouco as querem por perto, porque não há mais demanda satisfatória para elas. Nem casas que tenham espaço para abrigá-las. Estão em CD-ROM ou nos seus sites. As impressas jazem, estragando em depósitos ad eternum.
Certamente há algum lugar para obras rejeitadas nos municípios e em outros estados, mas não se tem esta informação em mãos de imediato. Podemos dizer que  livros cujo destino são sebos, doação e reciclagem  estão órfãos? Receio que sim.
Sabe-se que se produzem mais livros no mundo do que se consome. Podemos avançar na hipótese de que este é um  terreno de política cultural para o qual mais se faz vista grossa.  E aliás, em se  tratando de “grosso”, o grosso desse contingente são, para variar, os livros didáticos. E isso é competência do governo federal, que vive alardeando os milhões de exemplares comprados para distribuição. E dos quais muitíssimos, em não muito tempo, vão parar... no lixo!  Felizmente aqueles livros para uso definitivo ficam mesmo nas casas das pessoas, ou  circulam em diferentes lugares, desde as bibliotecas aos sebos e camelôs.
Fazer  vista grossa a essa situação significa fazer vista grossa à questão ambiental. Ou seja, qual o limite da produção de massa de papel, no atual cenário de cuidados com o meio ambiente? Daí a importância de uma política seletiva  tanto na área de produção, como as tiragens, quanto na de guarda e reciclagem do  material rejeitado, que deve beirar à  ordem de milhões de toneladas, se tivermos como se fazer levantamento em todos os estados.  Sem falar do que isso pode representar em economia.
Mas quem está se dedicando seriamente a isso? Ninguém, porque “livro não se joga livro no lixo”. É o livro no domínio do sagrado. Grande parte das pessoas, em nome desse axioma, “doa”, quando na verdade estão se desfazendo de  livros, em geral imprestáveis - ninguém vai usar, como anuários, guias, catálogos em geral, publicações de uso temporário - por  medo  de descartar, pela falta de orientação de como e para quem entregar. É um “escândalo” noticiado nos jornais, caso de polícia, para o senso comum, achar livro no lixo, mas não há uma política para o livro rejeitado, como  há para o papel.
Qualquer bibliotecário sabe quais publicações não vão mais ter uso em sua biblioteca, mas não sabe, eterna dúvida, que destino lhes dar, já que a biblioteca precisa dar lugar aos novos títulos e às novas edições, em sua estante. E também sabem que tampouco elas vão ter uso em outras.
Uma ideia seria criar em cada município, ou nas capitais, órgãos e centros receptores e de triagem com as doações (até com veículos para receber em domicílio) com gente qualificada (importante) para classificar (por tipo e assunto), selecionar e cadastrar instituições e escolas que teriam interesse em receber este material, depois de avaliação criteriosa.
A idéia é simples e, creio, pouco onerosa.   Quantos galpões e prédios do governo existem por aí sem utilização, que podem ser aproveitados em prol do livro?
É um primeiro passo para se acabar com a orfandade do livro.

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