Na esteira do debate ecológico, vai se deixando para trás a representação do que sejam as toneladas de material didático inaproveitável no presente e no futuro. Como já tive oportunidade de dizer, aqui mesmo neste blog, a feição de tabu que se dá ao livro enquanto artefato sagrado vai permitindo que uma política complacente esvazie essas preocupações, tanto de ordem econômica quanto ambiental. Chegam as aulas e com elas o "natal" farto das editoras de livros didáticos. E o que uma política responsável deveria exigir? Papel reciclado para livros consumíveis. Os consumíveis são aqueles em que a criança escreve e faz exercícios, não se aproveitam para passar adiante, como pretende a propaganda oficial. As editoras produzem edições caras desses livros que poderiam ser simples como blocos e cadernos e bem baratos.
Em meu tempo de estudante, há algumas décadas, era costume se aproveitarem mais os cadernos, o que era um ganho na escrita, pois o exercício, ou era ditado ou copiado do quadro, o que fazia com que nos concentrássemos mais ao transcrever as questões. É uma perda de tempo? Perdia-se tempo escrevendo! E ainda havia outros ganhos. Havia ainda um tempo para se tirar dúvidas na hora de copiarmos.
Hoje o professor apenas assinala as páginas do livro, que o menino leva para casa, sem tirar as possíveis dúvidas. E muitas vezes volta com o exercício ou em branco ou incompleto. Aquele antigo procedimento dava a oportunidade do professor retomar o exercício com todos da classe, sem que apenas corrigisse automaticamente os exercícios com as respostas do "livro do professor", como faz hoje; enfim havia, creio, um envolvimento maior entre as partes naquela correção. Não que um professor que use o didático não faça isto, mas por falta de tempo, muitas vezes, e pela "facilidade" do didático, às vezes é obrigado a abrir mão da prática da correção em conjunto, perdendo a oportunidade das discussões e esclarecimentos que surgem naturalmente, além de ouvir mais os alunos.
Não sou professora, mas se fosse, a minha angústia maior seria saber se eles estariam realmente entendendo determinado conteúdo. Sem isso, eu jamais avançaria na matéria para "dar conta do programa".
Pedagogices à parte, falava da questão ecológica. Com a reforma ortográfica ou outras quaisquer reformas, montanhas de livros serão desperdiçados. Alguma autoridade se dá conta disso? Por que não se fazer a coleta e reprocessar tantos e tantos livros para reaproveitamento? Enfim, as políticas públicas, tanto na área da educação quanto da ecologia não podem estar separadas.
Já falei neste assunto em dois posts, a conferir: "Livros órfãos - política de Estado" e "Os capas-duras", mas a preocupação continua.
Nenhum comentário:
Postar um comentário