Capitu: as lentes de Luis Fernando Carvalho: releitura
Não poderia passar sem registro aqui a minissérie "Capitu" que Luís Fernando Carvalho (LFC) dirigiu para a tv Globo em dezembro de 2009.
Se aqui falamos em "releituras", várias delas são permitidas pela variedade de recursos cênicos e referências numa cesta riquíssima que o diretor nos proporcionou.
Assim como nas outras séries, a tentação do fácil não o fisgou, ao contrário, cada vez mais contempla e surpreende seu público com mais audácia , desta vez confrontando as imagens beirando ao burlesco com a escrita afiada da narrativa machadiana, na voz de um Bentinho patético, desglamurizado e encurvado pelo peso das dúvidas que, como um verdadeiro "capitão Tornado" - ou Tormenta - que, à la Ettore Scola, enfrenta suas tempestades interiores, desde as primeiras brumas.
Ao contrário do que se poderia esperar , os "pincéis" de LFC com sua gama de cores, luzes, matizes, figuras bizarras, de uma estética felliniana, sua liberdade irrestrita nos adereços, desde um impactante Otelo de Orson Welles, uma música contemporânea, a um inusitado celular em cena, por mais alegóricos fossem os elementos de apoio à narrativa, nada roubou a magia do poderoso texto.
O que mais ressaltou, nesse encontro visual entre Dom Casmurro "das letras", o nosso tão badalado Dom Casmurro, tão banalizado pela escola, e a telinha com "cheiro" de cinema italiano (expressionista) dos bons, foi a incorruptível e, por isso, incomparável prosa do nosso mestre, que saltou da moldura fina que Luís Fernando Carvalho lhe emprestou em toda sua forma, muito embora fossem trechos. Um trecho de Machado valeriam quantas obras?
Seria talvez audácia demais também dizer que, guardadas as devidas comparações, vista a obra e vista esta moldura, Capitu não seria a nossa Madonna (do DaVinci), esta com poder nos olhos, e aquela no sorriso?
É ou não é uma releitura possível?
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