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quinta-feira, 29 de março de 2012

SOS Machado de Assis

Por ocasião do Centenário  da morte de Machado de Assis , as escolas  ficam em polvorosa e tome Machado de Assis para aluninhos desde os dez anos de idade!
Ok, eles pegam poemas, crônicas, contos e os maravilhosos romances “engolem” de qualquer jeito  sem digerir – a l i e n a d a m e n te  - porque ainda não têm maturidade para saborearem a iguaria mais fina da literatura brasileira, que é o Machado.
Isso é um atentado contra o bom gosto, contra a estética, contra tudo que representa de bom e de mais universal em nossa literatura, e convenhamos, contra a leitura, que passa pelos pequenos com sabor de jiló ou óleo de rícino para cabecinhas ainda tão imaturas.
Resultado: irão odiar Machado de Assis desde criancinhas , e com toda razão, e esse ódio tem consequências:  mais tarde, a não ser para os raros  que trilharem o caminho das letras, jamais retomarão o nosso magnífico autor.
A mentalidade positivista reza que as crianças devem participar da passagem do evento, até aí nada demais, porém fazê-los ler a obra de Machado  vai uma distância estratosférica!
Quem tem que ler Machado é  o professor. Colher passagens deliciosas que são muitas, passá-las aos pequenos, aí sim, é "dever até com a pátria" , mas mandá-los, como um rebanho, procurar por “um tal de Machado de Assis” que “a professora mandou ler”, prefiro deixar  à apreciação das autoridades  e lançar um SOS!
Às autoridades em educação e cultura,
 À academia de Letras,
Às universidades!
Os índices de lanterninha do Brasil na Educação se devem em muito a essas práticas. De professores que não estudam, de professores que não lêem, de professores que não buscam melhores maneiras de levar a excelência  a seus educandos.
Como diz Edgar Morin, as crianças não precisam de “cabeças cheias”, mas de “cabeças bem-feitas”.
E não será por esses meios que se conseguirá. Quem ama Machado de Assis sabe.
Transcrevo o artigo de Por Lud Inácio em 1/7/2008 * com quem concordo inteiramente:
Machado de Assis é uma porcaria
A acusação de que os jovens brasileiros têm preguiça de ler é injusta e infundada. O fenômeno Harry Potter testemunha a favor. O Brasil assistiu boquiaberto a miúdas crianças devorarem avidamente infinitas páginas de um pesado volume cujas mãozinhas mal conseguiam sustentar. Da mesma forma, é mentira que criança não gosta de tomar remédio. Ao contrário, é preciso vigiar o frasco de xarope, pois o líquido colorido, cheiroso e docinho lhes aguça a atenção. O segredo do best seller infantil foi justamente este: transformar um amaríssimo remédio em deliciosa guloseima.
Na verdade, os pequenos não-leitores são vítimas de ignorantes imposições que fazem dessa atividade não uma prazerosa fonte de crescimento e informação, mas um enfadonho e torturante castigo. Um mau exemplo disso é a teimosia de desastrados professores, que insistem em empurrar Machado de Assis goela abaixo de uma criança de 4ª série. O resultado é que ela toma ódio desse e de outros gênios – aliás, de qualquer literatura.
E deve-se, no caso, dar razão ao educando, pois Machado é insuportavelmente inadequado para a idade. Seu vocabulário e suas construções frasais são vetérrimos, herméticos e sua filosofia inalcançável para tão incipiente formação. Os incautos mestres querem que a criança tome a bicicleta pela primeira vez e já saia pedalando com destreza. É preciso que se coloquem aquelas rodinhas laterais até que o novo ciclista aprenda a se equilibrar. Assim, um dos melhores livros de toda a literatura brasileira é o Escaravelho do Diabo, se lido aos 10 anos de idade. (...)
Em descompasso com o aluno, a escola teima no ensino cronológico das correntes literárias e respectivas obras. Mais proveitoso seria começar pela literatura contemporânea, até que um dia ele se interessasse por texto cheirando a mofo – cantigas de amigo e maldizer.
Mas há coisa pior: despreparados professores usam a leitura como instrumento de coação. Alguns, para recobrarem a disciplina e a ordem da sala, ameaçam seus alunos com atividades de leitura. O resultado é previsível.
Em suma, a criança e o adolescente não lêem porque a escrita é intragável. A começar pelo vocabulário, embaraçoso, incompatível com sua deficitária formação escolar.(...)
Os pais dão sua contribuição: são o melhor exemplo do que não se deve fazer. Prostram-se mudamente diante da TV e dali só saem para dormir. Desconhecem que um dos melhores métodos de ensino e aprendizagem chama-se imitação. As crianças copiam o que vêem, ou melhor, o que não vêem. Se não flagram seus pais degustando um bom livro, não repetirão a experiência.(...)
Habituados a elogios de colegas e de respeitadíssimos intelectuais, os jornalistas ou mesmo escritores não têm consciência de que suas obras de arte são modorrentas leréias. O leitor é excluído porque não dispõe de instrumento para decifrar tão enigmática composição. É como se ela estivesse redigida em japonês arcaico de trás para frente.(...)
É preciso recorrer a profissionais de outras áreas: pedagogos, psicólogos, educadores, bem como a jovens talentos jornalísticos inatos. Só assim será possível a resposta:
– Aí! De-mo-rô, meu.

Observatório da Imprensa www.observatoriodadimprensa.com.br

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