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quinta-feira, 29 de março de 2012

Os capas-duras

Nós, profissionais do livro, pensamos no nosso produto não só em termos de suporte físico como   em seus conteúdos e seu alcance. 
Das  décadas de meados ao fim do século 19, e até bem pouco tempo, anos 60-70 do século 20, produziam-se  obras “de coleção”, cujo padrão era capa dura e pesada.  Mas vejam como isso dizia respeito ao seu próprio tempo e costumes . No primeiro período, as pessoas mais ricas e cultas ficavam  recolhidas em sua casa, após o jantar, mal o sol se punha, dirigiam-se  aos seus “aposentos” para ler ou à sua biblioteca particular . Ou ficavam na sala ou “salão” de leitura, onde eram comuns os  saraus literários. Nos “aposentos”  ou  quartos invariavelmente, existia uma grande escrivaninha de madeira de lei, uma luminária com luz direta, uma poltrona  para ler. E material de  escritório, pena, tinta, tinteiro e mata-borrão.   
Muito da literatura e artes plásticas desse período retrata esses ambientes. O livro, o capa-dura, era pensado para se perenizar através de gerações e gerações, atravessar reformas ortográficas  até acabar, como  praticamente acabou. Os capas-duras quase sempre levavam caracteres dourados nas lombadas e serviam para enfeitar em belíssimas estantes, como um  objeto de contemplação como outro qualquer. O quanto dessas obras não eram mais fetiches  do que de fruição? Tanto que se falava em compras de “livro  a metro”, onde o colecionador as comprava, não as lia, mas as exibia, porque era de “bom tom” entre as classes médias e altas. Hoje essas obras pesadas- algumas tinham até reforço metálico nas capas - são nômades à procura de pouso, por justas razões de época. Os espaços diminuiram; as pessoas se deslocam o dia todo e lêem menos e em trânsito; não há lugares específicos para leitura que converge cada vez mais para as escolas. Hoje as coleções saem em brochura – leves para se ler- e não para serem apreciadas, embora persistam muitos bibliófilos não leitores.
Ainda sobrevive uma cultura de “durabiidade” e preservação, em algumas instituições há a tradição do tombamento, não que este  seja reprovável, mas deve ser criterioso, já que nem toda obra necessita ser encadernada “para o futuro”. A maior parte das publicações, com exceção das de domínio universal, fica datada  e deve-se deixar o tempo cuidar dela e se extinguir naturalmente, como o fim de um ciclo de vida. Se voltar, reedite-se. O grande desafio atual para as editoras é manter intactas matrizes ou registros, em arquivos tipográficos ou eletrônicos, daquelas obras de repercussão no passado e que, a qualquer momento, podem voltar ao mercado.
Os capas-duras  remanescentes devem passar por séria avaliação e que se encontrem formas de, a bem do interesse  público, proporcionar-lhes a  leveza, não só no estilo como no suporte, como queria Calvino em Seis Propostas para o Terceiro Milênio.
Ou senão, como na frase de  Machado de Assis, em D. Casmurro, que” a terra lhes seja leve”.

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